Gestão da Propriedade Rural módulo 9 de 12
9

Decidir · as pessoas

Saber lidar com gente

Se você ficasse um mês fora, a propriedade continuaria funcionando?

6 liçõescerca de 25 minutos
produtor rural Vilmar de Almeida leva a colheita para comercializar, Planaltina/DF · CC BY-SA 2.0, Sergio Amaral/Ministério do Desenvolvimento Social/Wikimedia Commons

Neste módulo

  1. Por que as pessoas também são parte da gestão.
  2. Cinco habilidades para saber lidar com gente.
  3. O que faz alguém querer ficar numa propriedade.
  4. Segurança e o básico da lei do trabalho rural.
  5. Família que trabalha junto.
  6. Sucessão: a passagem da propriedade para a próxima geração.

Lição 1

Gente também é gestão

Os módulos anteriores trataram de terra, dinheiro, mercado e riscos. Mas nenhuma conta acontece sozinha: alguém ordenha, planta, conserta, compra, vende e anota. A propriedade funciona na medida em que as pessoas funcionam juntas.

vizinhos, cooperativa, assistência técnica diaristas e prestadores de serviço funcionários família
Quem faz a propriedade funcionar. Quanto mais perto do centro, maior a convivência e maior o peso das relações no resultado.

Na maioria das pequenas propriedades, o círculo do meio é a própria família. Em muitas médias, há também funcionários. Nos dois casos vale a mesma regra: saber lidar com gente é uma habilidade de gestão, tão importante quanto saber calcular o custo.

E é uma habilidade que se aprende. Ninguém nasce sabendo dar uma ordem sem ofender, ouvir uma crítica sem se fechar ou passar o comando adiante. Este módulo trata disso, na família e com os funcionários.

Lição 2

Cinco habilidades

  • Ouvir antes de decidir. Quem está na lida todo dia vê coisas que o dono não vê. Perguntar "o que você acha?" custa pouco e evita muito erro.
  • Combinar com clareza. Boa parte dos conflitos nasce de uma expectativa que nunca foi dita: "achei que era tua tarefa", "pensei que a terra ia ficar comigo". O que é combinado em voz alta, com prazo, vira acordo.
  • Dar retorno. Elogiar o que foi bem feito, e dizer o que precisa melhorar sem humilhar. Em particular, na hora certa, falando do trabalho e não da pessoa.
  • Negociar o conflito. Separar o problema da pessoa e buscar o acordo possível, não a vitória. Quem ganha a discussão e perde o funcionário, ou o irmão, perdeu.
  • Delegar e soltar. Confiar uma tarefa, ou uma parte da gestão, a outra pessoa, e aceitar que ela vai fazer do jeito dela. Sem isso, tudo depende de uma pessoa só.

Veja como essas habilidades aparecem em situações comuns. Escolha o que você faria.

Situação 1 de 4Melhor caminho 0

Em quase todas as situações, o melhor caminho começa por ouvir e combinar. Firmeza e cuidado não são opostos.

Lição 3

Valorizar quem trabalha

Encontrar quem queira trabalhar no campo está cada vez mais difícil, e um bom funcionário que sai leva junto anos de conhecimento da propriedade: o jeito de cada vaca, o canto da lavoura que encharca, o barulho do trator que está para quebrar. Manter custa menos do que trocar.

Por que as pessoas saem

  • Salário atrasado ou abaixo do que se paga na região.
  • Grito, desrespeito, humilhação na frente dos outros.
  • Nunca saber o que se espera, ou mudar a regra a cada dia.
  • Moradia ruim, falta de folga, jornada sem fim.
  • Não ver futuro: nada para aprender, nenhuma chance de crescer.

O que faz alguém ficar

  • Salário justo e pago no dia combinado.
  • Respeito, e ser ouvido sobre o próprio trabalho.
  • Tarefas e horários claros, folga respeitada.
  • Condições dignas de moradia, alimentação e segurança.
  • Reconhecimento, chance de aprender e, quando possível, prêmio combinado por resultado.

Duas ferramentas simples ajudam. Os cursos do SENAR-RS capacitam funcionários e familiares em operação de máquinas, ordenha, manejo e segurança, e mostram que a propriedade investe nas pessoas. E um prêmio combinado por resultado, por exemplo por litro de leite com boa qualidade ou por índice de prenhez, alinha o interesse de quem trabalha com o da propriedade. Combine as regras por escrito, antes.

Lição 4

Segurança e o básico da lei

Cuidar da segurança de quem trabalha é a forma mais concreta de valorizar. O campo tem riscos sérios: máquinas e tomadas de força, agrotóxicos, animais grandes, quedas, choques elétricos.

  • Máquinas: proteções no lugar, manutenção em dia, ninguém operando sem saber.
  • Agrotóxicos: equipamento de proteção fornecido pela propriedade, treinamento, armazenamento trancado e longe da casa, respeito ao prazo de reentrada na lavoura.
  • Animais: instalações adequadas para o manejo, cuidado redobrado com touros e vacas com cria.

Essas exigências estão na NR-31, a norma de segurança e saúde no trabalho na agricultura e na pecuária.

O básico da lei

  • Registro: quem trabalha com regularidade para a propriedade, com horário e subordinação, é empregado e deve ser registrado.
  • Tipos de contrato: a lei do trabalho rural prevê o contrato por prazo indeterminado e também contratos por prazo determinado, como o de safra.
  • Diaristas: o trabalho eventual é diferente do emprego. Mas quem trabalha com frequência para a mesma propriedade, mesmo recebendo por dia, pode ter vínculo de emprego reconhecido.
  • Direitos: salário, 13º salário, férias com adicional de um terço, FGTS, jornada e descanso, entre outros.
As regras trabalhistas têm detalhes e mudam. Antes de contratar, confirme com o sindicato rural, o sindicato dos trabalhadores rurais ou um contador o tipo de contrato, os encargos e as obrigações do seu caso.

Lição 5

Família que trabalha junto

Trabalhar em família tem uma força enorme: confiança, dedicação, conhecimento passado de geração em geração. E tem uma dificuldade própria: as relações da casa entram no trabalho, e as do trabalho entram na casa.

  • Separar os papéis. Na lavoura, o pai pode ser o gestor; na mesa de domingo, é o pai. Discutir trabalho no almoço de família, ou família na lida, costuma piorar os dois.
  • Remunerar quem trabalha. O filho ou a filha que trabalha na propriedade precisa de uma renda própria e combinada, não de "quando sobrar". Sem isso, é comum que vá embora, com razão. É o pró-labore do módulo 4, agora visto do lado de quem recebe.
  • Combinar quem decide o quê. Quem compra os insumos, quem negocia com o laticínio, quem decide sobre um financiamento. Decisões grandes, em conjunto; as do dia a dia, com quem é responsável por elas.
  • Fazer reunião de família. Uma vez por mês, com hora para começar e terminar, para olhar os números (módulo 12) e combinar o próximo mês. Reunião só na hora da crise vira briga.

Se você vai começar

Se o novo negócio envolve sócios, parentes ou um casal, combine tudo isso antes de começar, de preferência por escrito: quanto cada um investe, quanto trabalha, quanto recebe, quem decide o quê e o que acontece se alguém quiser sair.

Lição 6

Sucessão

A sucessão é a passagem da propriedade e da gestão para a geração seguinte. É um dos momentos mais delicados da vida de uma família rural, e muitas propriedades se perdem nele: não por falta de terra ou de dinheiro, mas por falta de conversa.

Sucessão não é um dia. É um caminho de anos.

  1. 1AprenderO sucessor trabalha em todas as áreas e conhece os números, não só a lida.
  2. 2Gerir uma parteRecebe uma atividade ou um talhão para tocar com autonomia: decide, erra, acerta e presta contas.
  3. 3Dividir a gestãoAs decisões grandes passam a ser tomadas em conjunto. A geração mais velha aconselha mais do que manda.
  4. 4AssumirO sucessor comanda. Quem passou o comando continua presente, mas sem desautorizar.
  • Falar cedo. Quem quer ficar? Quem não quer? Os filhos que foram para a cidade também são herdeiros, e precisam participar da conversa.
  • Soltar. Para quem construiu a propriedade, passar o comando é a parte mais difícil. Desautorizar o sucessor na frente dos funcionários desfaz em um dia o que levou anos.
  • Ser justo não é dividir igual. Quem fica trabalhando e quem saiu podem receber partes diferentes, desde que combinadas e compreendidas por todos. Dividir a terra em pedaços pequenos demais pode inviabilizar a produção para todos.
  • Resolver os papéis. Doação em vida, testamento, partilha e outras formas jurídicas têm vantagens e custos diferentes. Procure um advogado, de preferência com experiência em direito rural, e a EMATER ou o sindicato para orientação.

Na sua propriedade

Quem faz o quê

Liste as principais tarefas da propriedade, quem faz cada uma, quem substitui quando essa pessoa falta e quantas horas por semana a tarefa leva.

Liste as tarefas que a nova atividade vai exigir e quantas horas por semana cada uma leva. Para o que ninguém da família vai fazer, escreva "contratar" em "quem faz".

TarefaQuem fazQuem substituiHoras por semana

Custo real de um funcionário

O salário é só uma parte do custo. Some o 13º, as férias, os encargos e o que a propriedade oferece além do salário.

R$
%
R$
R$
h

Para lembrar

O essencial do módulo

  1. 1Saber lidar com gente é habilidade de gestão, e se aprende: ouvir, combinar, dar retorno, negociar e delegar.
  2. 2Manter um bom funcionário custa menos do que trocar. Salário em dia, respeito, regras claras e chance de aprender fazem as pessoas ficarem.
  3. 3Segurança é a forma mais concreta de valorizar. As regras trabalhistas têm detalhes: confirme com o sindicato ou o contador.
  4. 4Sucessão é um caminho de anos: falar cedo, preparar o sucessor e saber soltar.

Teste rápido

Três perguntas

Toque na resposta que achar certa.

Pergunta 1Qual a melhor forma de corrigir um erro de um funcionário?

Corrigir em particular preserva a pessoa e resolve o problema. Calar deixa o erro se repetir.

Pergunta 2O salário de um funcionário é R$ 2.000 por mês. O custo real para a propriedade é:

O custo real soma 13º, férias com um terço, encargos como o FGTS, moradia, alimentação e equipamentos.

Pergunta 3Qual destas atitudes mais ajuda na sucessão?

Sucessão é um caminho. Gerir uma parte com autonomia prepara o sucessor e dá tempo para a geração mais velha aprender a soltar.

A seguir, módulo 10
Começar ou ampliar