Lição 1
Três perguntas
Quando se pergunta a um produtor quanto custa produzir, a resposta quase sempre é a soma do que ele pagou: adubo, semente, diesel, ração. Essa conta está certa, mas está incompleta. O custo de verdade responde a três perguntas, uma em cima da outra:
Quanto eu paguei para produzir?
Quanto eu gastei, mesmo sem tirar do bolso?
Quanto eu ganharia se usasse a terra e o dinheiro de outro jeito?
As siglas são as mesmas usadas pela CNA, no projeto Campo Futuro, e pela CONAB nos custos de produção que publicam. Não precisa decorar: o importante é a ideia de cada degrau.
- COE, custo operacional efetivo: o dinheiro que saiu do bolso.
- COT, custo operacional total: o COE mais o desgaste dos bens e o trabalho da família.
- CT, custo total: o COT mais o que a terra e o dinheiro empatados renderiam em outro uso.
Lição 2
O que sai do bolso
O primeiro degrau é o mais fácil de medir, se as anotações do módulo 3 estiverem em dia. Entra aqui tudo o que foi pago para produzir, naquela atividade, naquele ano:
- Insumos: sementes, adubo, calcário, defensivos, ração, sal mineral, medicamentos.
- Operações: diesel, manutenção de máquinas, serviços contratados de plantio, colheita ou transporte.
- Mão de obra contratada: salários, diárias, encargos.
- Outros: energia, arrendamento pago, assistência técnica, seguro, juros do custeio, impostos e taxas sobre a produção.
O COE responde a uma pergunta de curto prazo: a atividade paga as contas do ano? Se o preço não cobre nem o COE, cada saca produzida aumenta o prejuízo.
Lição 3
O que se gasta sem sair do bolso
Dois custos não aparecem no extrato do banco, mas são reais.
O desgaste dos bens
É a depreciação calculada no inventário do módulo 3. O trator, o galpão e a ordenhadeira perdem valor a cada ano. Se esse valor não for considerado, a atividade parece lucrativa até o dia em que for preciso trocar a máquina e não houver dinheiro.
O trabalho da família
Quem trabalha na propriedade e não recebe salário também tem um custo: é o que a família receberia se fizesse o mesmo trabalho para outra pessoa. Na metodologia de custos, esse valor se chama pró-labore. Uma boa referência é o salário de um empregado rural na região, para cada pessoa da família que trabalha na atividade. Como combinar o trabalho e a remuneração da família e dos funcionários é assunto do módulo 9.
Por que contar o trabalho da família
Duas propriedades de leite produzem o mesmo e têm o mesmo COE. Uma contrata um empregado, a outra usa o trabalho do casal. Sem contar o pró-labore, a segunda parece muito mais lucrativa, mas a diferença é só que o casal está trabalhando de graça. Com o pró-labore, a comparação fica justa.
Somando o COE, a depreciação e o pró-labore, chega-se ao COT. Ele responde a uma pergunta de médio prazo: a atividade se sustenta, repondo as máquinas e pagando quem trabalha?
Lição 4
O que se deixa de ganhar
O último degrau é o mais esquecido, e às vezes o mais pesado. Ele vem de uma pergunta simples: e se eu não produzisse?
- A terra própria poderia ser arrendada. O valor do arrendamento na região é quanto ela renderia sem nenhum trabalho.
- O dinheiro empatado em máquinas, animais e instalações poderia estar aplicado, rendendo juros.
Esses valores se chamam custo de oportunidade: o que se deixa de ganhar por escolher produzir. Somados ao COT, formam o CT, custo total, que responde à pergunta de longo prazo: produzir vale mais a pena do que arrendar a terra e aplicar o dinheiro?
Se a atividade não cobre o custo total, a família trabalha para ganhar menos do que ganharia sem trabalhar.
Isso não quer dizer que se deva vender tudo no dia seguinte. Morar no campo, manter a terra na família e gostar do que faz também têm valor. Mas é uma decisão que precisa ser tomada sabendo o tamanho da conta.
Se você vai começar
Se a terra for arrendada, o arrendamento é dinheiro que sai do bolso e entra no COE. Se for comprada, o arrendamento que ela renderia entra como custo de oportunidade no CT. Nos dois casos a terra tem custo: ela só muda de degrau.Lição 5
Custo por saca, por litro, por quilo
O custo total de uma atividade, sozinho, diz pouco. R$ 300 mil é muito ou pouco? Depende de quanto se produziu. Por isso o passo final é dividir cada degrau pela produção: o resultado é o custo por unidade.
| Exemplo: soja, 50 ha, 3.000 sacas | No ano | Por saca |
|---|---|---|
| COE: o que saiu do bolso | R$ 188.000 | R$ 62,67 |
| + depreciação e família | R$ 56.000 | R$ 18,67 |
| COT | R$ 244.000 | R$ 81,33 |
| + terra e capital | R$ 94.000 | R$ 31,33 |
| CT | R$ 338.000 | R$ 112,67 |
Agora a comparação com o preço é direta. Se a saca vale R$ 120, a soja desse exemplo paga todos os degraus e ainda sobra um pouco. Se vale R$ 100, paga o bolso, o desgaste e a família, mas rende menos do que arrendar a terra e aplicar o dinheiro. O módulo 5 trabalha essa comparação.
O custo por unidade também permite comparar com outras propriedades e com as referências da CONAB e do Campo Futuro, e acompanhar a evolução de um ano para outro.
Na sua propriedade
Quanto custa a sua atividade?
Escolha uma atividade e use os valores de um ano inteiro, de preferência da última safra. Se a propriedade tem mais de uma atividade, comece pela principal.
Use os valores planejados para um ano de produção normal, depois da implantação. Fontes para estimar: custos de produção da CONAB, do Campo Futuro, da EMATER e conversas com produtores da atividade.
Sai do bolso · COE
Sem sair do bolso · COT
O que deixa de ganhar · CT
Para lembrar
O essencial do módulo
- 1COE é o que sai do bolso. Responde se a atividade paga as contas do ano.
- 2COT soma o desgaste dos bens e o trabalho da família. Responde se a atividade se sustenta.
- 3CT soma o que a terra e o dinheiro renderiam em outro uso. Responde se produzir vale a pena.
- 4Dividir pela produção dá o custo por unidade, que se compara direto com o preço.
Teste rápido
Três perguntas
Toque na resposta que achar certa.
Pergunta 1O casal trabalha na própria atividade de leite e não tira salário. Na conta do custo, esse trabalho:
O trabalho da família tem valor. Sem ele, a atividade parece mais lucrativa do que é, e não dá para comparar com quem contrata.
Pergunta 2Um produtor colheu 2.500 sacas e o custo total (CT) foi de R$ 275.000. Qual o custo total por saca?
R$ 275.000 divididos por 2.500 sacas dá R$ 110 por saca.
Pergunta 3A terra é própria e poderia ser arrendada por R$ 60 mil ao ano. Esse valor é:
Ninguém paga esse valor, mas o produtor deixa de recebê-lo ao usar a terra ele mesmo. É custo de oportunidade.
Quanto sobra