Lição 1
A memória engana
Todo mundo lembra quanto pagou pela última colheitadeira ou pelo touro novo. Quase ninguém lembra das pequenas despesas: a peça que quebrou, o frete da ração, a consulta do veterinário, o conserto do arame. Uma por uma, parecem pouca coisa. Somadas no ano, são uma conta grande.
- correia do tratorR$ 280
- frete da ração, 12 viagensR$ 1.440
- duas visitas do veterinárioR$ 600
- arame e grampos para cercaR$ 520
- conserto da bomba d'águaR$ 390
- óleo e filtrosR$ 760
- medicamentos para o rebanhoR$ 1.150
- pneu da carretaR$ 950
Sem anotação, a gestão vira impressão: "o leite está dando", "a soja este ano foi mal". Impressões ajudam, mas não mostram onde está o problema nem quanto ele custa. Anotar é o que transforma a impressão em número.
O que não se anota, não se mede. O que não se mede, não se melhora.
Lição 2
O que anotar
Não é preciso anotar tudo. São quatro tipos de registro, e cada um responde a uma pergunta diferente.
Dinheiro
Tudo o que entra e sai, com a data, o valor, a atividade e se é da casa ou da propriedade. Responde: sobrou ou faltou?
Produção
Litros entregues, sacas colhidas, quilos vendidos, nascimentos e mortes. Responde: quanto produzi?
Manejo
O que foi aplicado, onde, quando e quanto: adubo, semente, defensivo, vacina. É o caderno de campo. Responde: o que eu fiz em cada lavoura ou lote?
Bens
As máquinas, construções, animais e estoques, com o valor e o estado. É o inventário. Responde: o que eu tenho?
Uma regra ajuda muito: marque cada gasto com a atividade a que ele pertence. Se a propriedade tem leite e soja, o adubo da soja vai para a soja e a ração vai para o leite. Os gastos que servem às duas, como a luz ou o conserto do trator, podem ser divididos no fim do mês. Assim, no fim do ano, dá para saber qual atividade paga a outra.
Lição 3
Caderno, planilha ou aplicativo
A melhor ferramenta é a que você vai usar todo dia. Um caderno bem feito vale mais do que um aplicativo abandonado em março.
| Data | O quê | Atividade | Casa ou prop. | Entrou | Saiu |
|---|---|---|---|---|---|
| 02/09 | leite de agosto | leite | prop. | 14.820 | |
| 04/09 | ração, 40 sacos | leite | prop. | 3.920 | |
| 06/09 | rancho do mês | - | casa | 1.350 | |
| 10/09 | semente de milho | milho | prop. | 2.600 | |
| 15/09 | conserto do trator | dividir | prop. | 740 |
Modelo de caderno de caixa. Os valores são de exemplo.
- Caderno: barato, sempre à mão, não depende de sinal. Exige somar no fim do mês.
- Planilha: soma sozinha e faz gráficos. Exige computador ou paciência no celular.
- Aplicativo: prático no celular e organiza por atividade. Escolha um que deixe exportar os dados, para não ficar preso a ele.
Quatro costumes que fazem funcionar
- Anotar no mesmo dia. Deixar para o fim de semana é esquecer metade.
- Guardar as notas e recibos num envelope ou pasta por mês.
- Conferir com o extrato do banco ou da cooperativa uma vez por mês.
- Somar no fim do mês: entradas, saídas, quanto foi para cada atividade e quanto foi para a casa.
Lição 4
O inventário
O inventário é a lista de tudo o que a propriedade tem para produzir. Faça uma vez por ano, sempre na mesma época, por exemplo no fim da safra. Para cada bem, anote:
- O que é, e o ano em que foi comprado ou construído.
- Quanto vale hoje: quanto você conseguiria vender, ou quanto pagaria por um igual, usado, no mesmo estado.
- Quantos anos ainda deve durar trabalhando na propriedade.
- Quanto deve valer no fim: o que se consegue vender quando for trocado, nem que seja como sucata.
Com isso dá para fazer uma conta simples e muito importante: quanto a propriedade precisa guardar por ano para repor esse bem quando ele acabar. É o valor de hoje menos o valor no fim, dividido pelos anos que faltam.
Exemplo
Um trator vale hoje R$ 85.000, deve trabalhar mais 10 anos e no fim valerá uns R$ 25.000. A perda de valor é de R$ 60.000 em 10 anos: R$ 6.000 por ano. Esse dinheiro não sai do bolso todo ano, mas o trator está se gastando. Se a atividade não separa esse valor, no dia da troca não haverá dinheiro.
Esse desgaste se chama depreciação. Ele volta no módulo 4 como parte do custo de produzir. A terra não entra nessa conta: bem cuidada, ela não se gasta.
Lição 5
Os papéis da propriedade
Além dos registros de gestão, há documentos que a lei exige ou que fazem falta na hora de pegar crédito, vender ou passar a propriedade adiante. Tenha uma pasta só para eles.
| Documento | Para que serve |
|---|---|
| Matrícula do imóvel | Prova de quem é o dono da terra. Fica no Registro de Imóveis. |
| CCIR | Certificado de cadastro do imóvel rural no INCRA. Pedido em financiamentos e na venda. |
| ITR | Imposto territorial rural, declarado todo ano à Receita Federal. |
| CAR | Cadastro ambiental rural: mostra as áreas de preservação e a reserva legal. |
| Inscrição estadual de produtor | Permite emitir a nota fiscal de produtor na venda. |
| CAF | Cadastro da agricultura familiar, que substituiu a antiga DAP. Dá acesso ao PRONAF e a programas como o PNAE. |
| Notas de compra e venda | Comprovam receitas e despesas da atividade rural, inclusive para o imposto de renda. |
| GTA | Guia de trânsito animal, obrigatória para transportar animais. |
Se você vai começar
Antes de comprar uma área, peça a matrícula atualizada, o CCIR, os comprovantes de ITR e o CAR. Eles mostram se a terra tem dono certo, dívidas, restrições ambientais ou problemas de divisa. O módulo 10 mostra o passo a passo para começar.Lição 6
Impostos e obrigações
A atividade rural tem regras próprias de impostos e contribuições. Não é preciso dominar os detalhes, mas é preciso saber que elas existem, porque quase todas dependem de uma coisa: as notas e os registros que este módulo ensinou a guardar.
- Imposto de renda: o produtor pessoa física declara o resultado da atividade rural num anexo próprio da declaração, com as receitas e as despesas do ano. Na atividade rural, as despesas de custeio e os investimentos podem ser abatidos, desde que comprovados. Sem nota, a despesa não conta.
- Livro caixa digital: acima de um valor de receita definido pela Receita Federal, o produtor precisa manter o livro caixa da atividade rural em formato digital. Quem já anota entradas e saídas, como na lição 3, está a meio caminho.
- Contribuição sobre a venda: na venda da produção, em geral é descontada uma contribuição previdenciária calculada sobre o valor vendido, conhecida como Funrural.
- Nota fiscal de produtor: emitida a partir da inscrição estadual, é obrigatória para vender e transportar a produção, e é a prova da receita.
- ITR: o imposto sobre a terra, declarado todo ano.
Na sua propriedade
O inventário da sua propriedade
O que você vai precisar comprar
Liste as máquinas, equipamentos, construções e animais de produção. Comece pelos mais caros. A terra fica de fora: ela entra no módulo 4.
Liste o que a atividade vai exigir: máquinas, equipamentos, construções, animais. Pesquise o preço de cada item, novo ou usado. A terra fica de fora: ela entra no módulo 10.
| Bem | Valor hoje (R$) | Anos que ainda dura | Valor no fim (R$) |
|---|
Para lembrar
O essencial do módulo
- 1Os pequenos gastos esquecidos somam muito no ano. Anotar transforma impressão em número.
- 2Quatro registros: dinheiro, produção, manejo e bens. Marque cada gasto com a sua atividade.
- 3A melhor ferramenta é a que você usa todo dia. Anote no mesmo dia e some no fim do mês.
- 4O inventário mostra o que a propriedade tem e quanto ela precisa guardar por ano para repor os bens.
Teste rápido
Três perguntas
Toque na resposta que achar certa.
Pergunta 1A propriedade tem leite e milho. O conserto do trator, usado nas duas atividades, deve ser anotado como:
Gastos que servem às duas atividades são divididos, por exemplo, pelas horas de uso do trator em cada uma.
Pergunta 2Uma ordenhadeira vale hoje R$ 20.000, deve durar mais 8 anos e no fim valerá R$ 4.000. Quanto a propriedade deveria guardar por ano para repô-la?
R$ 20.000 menos R$ 4.000 dá R$ 16.000 de perda de valor. Dividido por 8 anos: R$ 2.000 por ano.
Pergunta 3Qual documento dá acesso ao PRONAF?
O CAF identifica o agricultor familiar e substituiu a antiga DAP. Sem ele, não há acesso ao PRONAF.
Quanto custa produzir