Gestão da Propriedade Rural módulo 2 de 12
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Olhar · o mercado

De onde vem o preço

Por que o preço da sua soja muda quando chove nos Estados Unidos?

6 liçõescerca de 25 minutos
fila de caminhões carregados de soja, Joviânia/GO · CC BY 3.0, Tiago Firmino Boaventura/Wikimedia Commons

Neste módulo

  1. Por que o preço sobe e desce, e quem decide isso.
  2. Por que o produtor não manda no preço, e no que ele manda.
  3. O caminho do produto até a mesa, e quem fica com cada parte.
  4. Como Chicago, o dólar e o porto chegam ao preço da sua cidade.
  5. Por que os insumos também dependem do mundo lá fora.
  6. Leite, boi, hortaliças e frutas: mercados com regras próprias.

Lição 1

O preço é um cabo de guerra

De um lado, quem quer vender: a oferta. Do outro, quem quer comprar: a demanda. Quando tem muito produto e pouca gente querendo, o preço cai. Quando falta produto e muita gente quer, o preço sobe. Ninguém decide o preço sozinho: ele é o ponto em que essa disputa se equilibra naquele dia.

Parece simples, e é. O difícil é que hoje esse cabo de guerra acontece no mundo inteiro ao mesmo tempo. Toque nos acontecimentos abaixo e veja para onde o preço da soja tende a ir.

caiestávelsobe
Escolha um acontecimento.

Repare que nenhum desses acontecimentos depende do produtor gaúcho. Ele sente o efeito, mas não controla a causa.

Lição 2

Você não manda no preço

Uma lavoura de soja de cem hectares, por maior que pareça, é um grão de areia no mercado mundial. Se o produtor pedir mais caro que o vizinho, o comprador vai no vizinho. Se pedir mais barato, perde dinheiro à toa. Na economia, quem está nessa posição se chama tomador de preço: aceita o preço que o mercado oferece.

Você não manda no preço. Manda no custo, na qualidade e na hora e no jeito de vender.

É por isso que este curso dá tanta atenção ao custo. É a parte da conta que está nas suas mãos. Mas o preço não é só azar ou sorte: entender o que mexe nele ajuda a decidir quando vender, para quem vender e o que produzir.

  • Custo: produzir a saca, o litro ou a arroba por menos do que o vizinho é a defesa mais forte contra preço baixo.
  • Qualidade: no leite, gordura, proteína e contagem bacteriana mudam o preço pago. No boi, o acabamento. Na fruta, o calibre e a aparência.
  • Hora e jeito de vender: vender tudo no pico da colheita, quando todo mundo vende, costuma ser o pior momento. O módulo 8 trata disso.

Se você vai começar

Algumas atividades deixam o produtor um pouco menos tomador de preço: venda direta ao consumidor, feiras, produtos com marca própria, orgânicos, agroindústria familiar. Em troca, exigem mais trabalho de venda. Vale pesar isso na escolha da atividade, assunto do módulo 10.

Lição 3

Da porteira até a mesa

Nenhum produto sai da propriedade direto para o prato. Ele passa por uma cadeia: um caminho de empresas e pessoas, cada uma fazendo uma parte do serviço e ficando com uma parte do preço final.

  1. Fornecedores de insumossementes, adubo, ração, defensivos, máquinas, combustível
  2. A propriedadetransforma insumo, terra e trabalho em produto. É aqui que você está.
  3. Quem recebe e armazenacooperativa, cerealista, laticínio, frigorífico, CEASA
  4. Indústriaesmaga a soja, processa o leite, abate o boi, embala
  5. Transporte e exportaçãocaminhão, trem, porto de Rio Grande, navio
  6. Atacado e varejodistribuidores, supermercados, açougues, fruteiras
  7. Consumidorno Brasil ou do outro lado do mundo

Duas coisas importam para o produtor nessa cadeia.

Primeiro: ele está apertado dos dois lados. Compra insumos de poucas empresas grandes e vende para poucos compradores na região. Quem tem poucos concorrentes tem mais força para impor preço. Por isso cooperativas e associações existem: juntos, os produtores compram e vendem com mais força.

Segundo: cada elo cobra pelo serviço. Quando o preço do arroz sobe no supermercado, não quer dizer que subiu na mesma proporção para o produtor. Entre os dois estão frete, armazenagem, indústria, impostos e a margem de cada um.

Lição 4

Chicago, o dólar e o porto

A soja é o exemplo mais claro de produto com preço mundial. O preço de referência é formado na Bolsa de Chicago, nos Estados Unidos, em dólares por bushel (uma medida americana: uma saca de 60 kg tem cerca de 2,2 bushels). De lá até o preço da sua cidade, o caminho tem quatro passos:

  • Chicago: o preço de referência mundial, que muda todo dia.
  • Prêmio de porto: um valor a mais ou a menos que o comprador paga pela soja brasileira, conforme a procura por ela naquele momento.
  • Câmbio: transforma dólares em reais. Dólar alto, soja mais cara em reais.
  • Frete e despesas: o custo de levar a soja da sua região até o porto. Quanto mais longe do porto, menor o preço no interior.

Mexa nos controles e veja como cada parte chega ao seu bolso. Os valores iniciais são apenas um exemplo.

Simulador · preço da soja no interior

Chicago
dólares por bushel
Prêmio de porto
dólares por bushel, pode ser negativo
Câmbio
reais por dólar
Frete e despesas até o porto
reais por saca, maior quanto mais longe do porto
Preço no porto, em dólares por saca
Preço no porto, em reais por saca
Menos frete e despesas
Preço na sua região

Experimente subir só o dólar: a soja fica mais cara em reais sem que nada tenha mudado na lavoura. Agora suba o frete: o produtor que está longe do porto recebe menos pela mesma soja. É por isso que o preço em Passo Fundo não é o mesmo que em Rio Grande.

Milho, trigo, arroz e carnes seguem a mesma lógica, com mais ou menos peso do mercado interno. O arroz, por exemplo, depende muito mais da safra gaúcha e do consumo brasileiro do que de Chicago.

Lição 5

Os insumos também vêm de longe

O mundo não chega só pelo preço do que você vende. Chega também pelo preço do que você compra.

  • Adubo: a maior parte do fertilizante usado no Brasil é importada. O preço acompanha o mercado mundial e o dólar.
  • Diesel: segue o preço do petróleo, que depende de guerras, decisões de países produtores e do dólar.
  • Defensivos e muitas peças de máquinas: têm matéria-prima ou fabricação no exterior.
  • Ração: milho e farelo de soja são cotados como a soja. Quando o grão sobe, o leite, o frango e o porco ficam mais caros de produzir.

Por isso o dólar alto é uma faca de dois gumes. Valoriza a soja, mas encarece o adubo. O que importa para o produtor não é só o preço do que vende, mas quanto do seu produto é preciso para pagar o que compra. Isso tem nome: relação de troca.

Exemplo

Se uma tonelada de adubo custa R$ 3.300 e a saca de soja vale R$ 120, são necessárias 27,5 sacas para pagar uma tonelada. Se no ano seguinte o adubo for para R$ 3.600 e a soja para R$ 140, a soja subiu mais: bastam 25,7 sacas. O produtor ficou em situação melhor, mesmo pagando mais caro pelo adubo.

A relação de troca é a forma mais simples de acompanhar se o momento é bom para comprar insumos. Você calcula a sua no fim deste módulo.

Lição 6

Nem tudo é Chicago

Cada produto tem o seu mercado, com regras próprias. Os principais da agricultura gaúcha:

Leite

O preço é definido pelo laticínio, mês a mês, e varia com a época do ano: quando o pasto está bom e há muito leite, o preço tende a cair. A qualidade do leite e o volume entregue rendem bonificações. No RS, o Conseleite publica valores de referência.

Boi

Segue o ciclo pecuário: quando o preço está alto, os pecuaristas seguram as vacas para criar mais bezerros, a oferta de boi cai e o preço sobe mais ainda. Anos depois, a oferta volta e o preço cai. Exportação e câmbio também pesam.

Hortaliças e frutas

Perecíveis, não podem esperar preço melhor. O preço muda de uma semana para outra, conforme a oferta na CEASA. A entressafra paga melhor, por isso escalonar o plantio é uma estratégia de mercado.

Venda direta e compras públicas

Feiras, cestas, venda pela internet e programas como o PNAE, da merenda escolar, que destina parte das compras à agricultura familiar. O preço é mais estável, mas exige organização, regularidade e documentação.

Onde acompanhar os preços

  • EMATER/RS-ASCAR: publica toda semana o Informativo Conjuntural, com os preços pagos ao produtor no estado.
  • CEPEA (Esalq/USP): indicadores diários de soja, milho, boi, leite e outros.
  • CONAB: preços, estimativas de safra e custos de produção.
  • CEASA/RS: cotações de hortaliças e frutas no atacado de Porto Alegre.
  • Sua cooperativa ou seu comprador: o preço que vale, no fim, é o oferecido na sua região.

Na sua propriedade

Quanto do seu produto paga o seu insumo?

Escolha o insumo que mais pesa na sua conta e o produto que você vende. Use o preço que pagou e o preço que recebeu, ou os de hoje na sua região.

Pesquise o preço do principal insumo da atividade que você pensa em começar e o preço que o produto recebe na região. Ligue para a cooperativa, a agropecuária, o laticínio ou a EMATER do município.

R$
R$

Antes de produzir, saiba para quem vender

Muita gente escolhe a atividade pelo que gosta de produzir e só depois descobre que não tem para quem vender. Responda com calma: as respostas ficam no seu caderno.

Para lembrar

O essencial do módulo

  1. 1O preço sai do encontro entre oferta e demanda, e hoje esse encontro é mundial.
  2. 2O produtor é tomador de preço: manda no custo, na qualidade e na hora e no jeito de vender.
  3. 3Na soja, o preço da sua região é Chicago mais o prêmio, vezes o dólar, menos o frete até o porto.
  4. 4Mais importante que o preço sozinho é a relação de troca: quanto do seu produto paga o seu insumo.

Teste rápido

Três perguntas

Toque na resposta que achar certa.

Pergunta 1Uma seca forte atinge a safra dos Estados Unidos. O que tende a acontecer com o preço da soja no RS?

O preço da soja é mundial. Menos soja no mundo significa preço maior em Chicago, e isso chega ao Brasil.

Pergunta 2O dólar subiu bastante. Para o produtor de soja, isso é:

O dólar alto valoriza a soja e encarece o adubo, o diesel e os defensivos. A conta que importa é quantas sacas pagam os insumos.

Pergunta 3Dois produtores vendem soja no mesmo dia. Um está perto do porto de Rio Grande, o outro no noroeste do estado. Quem tende a receber mais por saca?

O frete até o porto é descontado do preço. Quanto mais longe, menor o preço no interior.

A seguir, módulo 3
Anotar para gerenciar