Lição 1
O preço é um cabo de guerra
De um lado, quem quer vender: a oferta. Do outro, quem quer comprar: a demanda. Quando tem muito produto e pouca gente querendo, o preço cai. Quando falta produto e muita gente quer, o preço sobe. Ninguém decide o preço sozinho: ele é o ponto em que essa disputa se equilibra naquele dia.
Parece simples, e é. O difícil é que hoje esse cabo de guerra acontece no mundo inteiro ao mesmo tempo. Toque nos acontecimentos abaixo e veja para onde o preço da soja tende a ir.
Repare que nenhum desses acontecimentos depende do produtor gaúcho. Ele sente o efeito, mas não controla a causa.
Lição 2
Você não manda no preço
Uma lavoura de soja de cem hectares, por maior que pareça, é um grão de areia no mercado mundial. Se o produtor pedir mais caro que o vizinho, o comprador vai no vizinho. Se pedir mais barato, perde dinheiro à toa. Na economia, quem está nessa posição se chama tomador de preço: aceita o preço que o mercado oferece.
Você não manda no preço. Manda no custo, na qualidade e na hora e no jeito de vender.
É por isso que este curso dá tanta atenção ao custo. É a parte da conta que está nas suas mãos. Mas o preço não é só azar ou sorte: entender o que mexe nele ajuda a decidir quando vender, para quem vender e o que produzir.
- Custo: produzir a saca, o litro ou a arroba por menos do que o vizinho é a defesa mais forte contra preço baixo.
- Qualidade: no leite, gordura, proteína e contagem bacteriana mudam o preço pago. No boi, o acabamento. Na fruta, o calibre e a aparência.
- Hora e jeito de vender: vender tudo no pico da colheita, quando todo mundo vende, costuma ser o pior momento. O módulo 8 trata disso.
Se você vai começar
Algumas atividades deixam o produtor um pouco menos tomador de preço: venda direta ao consumidor, feiras, produtos com marca própria, orgânicos, agroindústria familiar. Em troca, exigem mais trabalho de venda. Vale pesar isso na escolha da atividade, assunto do módulo 10.Lição 3
Da porteira até a mesa
Nenhum produto sai da propriedade direto para o prato. Ele passa por uma cadeia: um caminho de empresas e pessoas, cada uma fazendo uma parte do serviço e ficando com uma parte do preço final.
- Fornecedores de insumossementes, adubo, ração, defensivos, máquinas, combustível
- A propriedadetransforma insumo, terra e trabalho em produto. É aqui que você está.
- Quem recebe e armazenacooperativa, cerealista, laticínio, frigorífico, CEASA
- Indústriaesmaga a soja, processa o leite, abate o boi, embala
- Transporte e exportaçãocaminhão, trem, porto de Rio Grande, navio
- Atacado e varejodistribuidores, supermercados, açougues, fruteiras
- Consumidorno Brasil ou do outro lado do mundo
Duas coisas importam para o produtor nessa cadeia.
Primeiro: ele está apertado dos dois lados. Compra insumos de poucas empresas grandes e vende para poucos compradores na região. Quem tem poucos concorrentes tem mais força para impor preço. Por isso cooperativas e associações existem: juntos, os produtores compram e vendem com mais força.
Segundo: cada elo cobra pelo serviço. Quando o preço do arroz sobe no supermercado, não quer dizer que subiu na mesma proporção para o produtor. Entre os dois estão frete, armazenagem, indústria, impostos e a margem de cada um.
Lição 4
Chicago, o dólar e o porto
A soja é o exemplo mais claro de produto com preço mundial. O preço de referência é formado na Bolsa de Chicago, nos Estados Unidos, em dólares por bushel (uma medida americana: uma saca de 60 kg tem cerca de 2,2 bushels). De lá até o preço da sua cidade, o caminho tem quatro passos:
- Chicago: o preço de referência mundial, que muda todo dia.
- Prêmio de porto: um valor a mais ou a menos que o comprador paga pela soja brasileira, conforme a procura por ela naquele momento.
- Câmbio: transforma dólares em reais. Dólar alto, soja mais cara em reais.
- Frete e despesas: o custo de levar a soja da sua região até o porto. Quanto mais longe do porto, menor o preço no interior.
Mexa nos controles e veja como cada parte chega ao seu bolso. Os valores iniciais são apenas um exemplo.
Simulador · preço da soja no interior
Experimente subir só o dólar: a soja fica mais cara em reais sem que nada tenha mudado na lavoura. Agora suba o frete: o produtor que está longe do porto recebe menos pela mesma soja. É por isso que o preço em Passo Fundo não é o mesmo que em Rio Grande.
Milho, trigo, arroz e carnes seguem a mesma lógica, com mais ou menos peso do mercado interno. O arroz, por exemplo, depende muito mais da safra gaúcha e do consumo brasileiro do que de Chicago.
Lição 5
Os insumos também vêm de longe
O mundo não chega só pelo preço do que você vende. Chega também pelo preço do que você compra.
- Adubo: a maior parte do fertilizante usado no Brasil é importada. O preço acompanha o mercado mundial e o dólar.
- Diesel: segue o preço do petróleo, que depende de guerras, decisões de países produtores e do dólar.
- Defensivos e muitas peças de máquinas: têm matéria-prima ou fabricação no exterior.
- Ração: milho e farelo de soja são cotados como a soja. Quando o grão sobe, o leite, o frango e o porco ficam mais caros de produzir.
Por isso o dólar alto é uma faca de dois gumes. Valoriza a soja, mas encarece o adubo. O que importa para o produtor não é só o preço do que vende, mas quanto do seu produto é preciso para pagar o que compra. Isso tem nome: relação de troca.
Exemplo
Se uma tonelada de adubo custa R$ 3.300 e a saca de soja vale R$ 120, são necessárias 27,5 sacas para pagar uma tonelada. Se no ano seguinte o adubo for para R$ 3.600 e a soja para R$ 140, a soja subiu mais: bastam 25,7 sacas. O produtor ficou em situação melhor, mesmo pagando mais caro pelo adubo.
A relação de troca é a forma mais simples de acompanhar se o momento é bom para comprar insumos. Você calcula a sua no fim deste módulo.
Lição 6
Nem tudo é Chicago
Cada produto tem o seu mercado, com regras próprias. Os principais da agricultura gaúcha:
Leite
O preço é definido pelo laticínio, mês a mês, e varia com a época do ano: quando o pasto está bom e há muito leite, o preço tende a cair. A qualidade do leite e o volume entregue rendem bonificações. No RS, o Conseleite publica valores de referência.
Boi
Segue o ciclo pecuário: quando o preço está alto, os pecuaristas seguram as vacas para criar mais bezerros, a oferta de boi cai e o preço sobe mais ainda. Anos depois, a oferta volta e o preço cai. Exportação e câmbio também pesam.
Hortaliças e frutas
Perecíveis, não podem esperar preço melhor. O preço muda de uma semana para outra, conforme a oferta na CEASA. A entressafra paga melhor, por isso escalonar o plantio é uma estratégia de mercado.
Venda direta e compras públicas
Feiras, cestas, venda pela internet e programas como o PNAE, da merenda escolar, que destina parte das compras à agricultura familiar. O preço é mais estável, mas exige organização, regularidade e documentação.
Onde acompanhar os preços
- EMATER/RS-ASCAR: publica toda semana o Informativo Conjuntural, com os preços pagos ao produtor no estado.
- CEPEA (Esalq/USP): indicadores diários de soja, milho, boi, leite e outros.
- CONAB: preços, estimativas de safra e custos de produção.
- CEASA/RS: cotações de hortaliças e frutas no atacado de Porto Alegre.
- Sua cooperativa ou seu comprador: o preço que vale, no fim, é o oferecido na sua região.
Na sua propriedade
Quanto do seu produto paga o seu insumo?
Escolha o insumo que mais pesa na sua conta e o produto que você vende. Use o preço que pagou e o preço que recebeu, ou os de hoje na sua região.
Pesquise o preço do principal insumo da atividade que você pensa em começar e o preço que o produto recebe na região. Ligue para a cooperativa, a agropecuária, o laticínio ou a EMATER do município.
Antes de produzir, saiba para quem vender
Muita gente escolhe a atividade pelo que gosta de produzir e só depois descobre que não tem para quem vender. Responda com calma: as respostas ficam no seu caderno.
Para lembrar
O essencial do módulo
- 1O preço sai do encontro entre oferta e demanda, e hoje esse encontro é mundial.
- 2O produtor é tomador de preço: manda no custo, na qualidade e na hora e no jeito de vender.
- 3Na soja, o preço da sua região é Chicago mais o prêmio, vezes o dólar, menos o frete até o porto.
- 4Mais importante que o preço sozinho é a relação de troca: quanto do seu produto paga o seu insumo.
Teste rápido
Três perguntas
Toque na resposta que achar certa.
Pergunta 1Uma seca forte atinge a safra dos Estados Unidos. O que tende a acontecer com o preço da soja no RS?
O preço da soja é mundial. Menos soja no mundo significa preço maior em Chicago, e isso chega ao Brasil.
Pergunta 2O dólar subiu bastante. Para o produtor de soja, isso é:
O dólar alto valoriza a soja e encarece o adubo, o diesel e os defensivos. A conta que importa é quantas sacas pagam os insumos.
Pergunta 3Dois produtores vendem soja no mesmo dia. Um está perto do porto de Rio Grande, o outro no noroeste do estado. Quem tende a receber mais por saca?
O frete até o porto é descontado do preço. Quanto mais longe, menor o preço no interior.
Anotar para gerenciar