COE, COT e Custo Total
A receita paga as contas, todas elas?
Depende de quais contas você enxerga. O boleto do adubo é visível; o desgaste do trator e o próprio salário do produtor, não.
Por isso o custo se calcula em três camadas progressivas: cada uma responde a uma pergunta gerencial diferente, do caixa do mês à decisão de investir.
Três camadas, três perguntas
Metodologia Matsunaga et al. (IEA, 1976), adotada pelo Campo Futuro/CNA: o padrão desta disciplina. CONAB e CEPEA têm estruturas equivalentes.
COE: o dinheiro que sai da conta
- Insumos, combustível, mão de obra contratada, serviços, fretes, taxas: tudo que aparece no extrato.
- Inclui fixos com desembolso: salário do permanente, manutenção, arrendamento pago.
Pergunta que o COE responde: a receita da safra paga as contas do projeto?
Itens diretos e itens automáticos
Diretos: linha por linha
Lançados por coeficiente × preço, como na T3: 300 kg/ha de adubo × R$ 3,26/kg. São a maioria dos itens.
Automáticos: % sobre a receita
Calculados como percentual da RB: Funrural (1,63%), comercialização (1,0–2,0%), assistência técnica (2%), despesas administrativas (3%).
O simulador calcula os automáticos sozinho a partir do passo 1, por isso a receita veio antes dos custos. Não os lance duas vezes.
Na planilha IRGA da T3, os automáticos apareciam como "de 3%", "(2%)": esse é o cálculo por trás desses percentuais.
Se a receita não cobre nem o COE
RB < COE significa que cada saca vendida dá prejuízo em caixa: a atividade não se sustenta nem no curto prazo.
- Decisão: parar ou reformular já, sem esperar pela depreciação ou pelo pró-labore.
- Lembrete da T3: o custo variável do arroz IRGA (R$ 67,40/sc) já superava o preço de referência (R$ 61,02/sc). Esse é o cálculo que indica quando parar ou reformular.
Cobrir o COE é o primeiro degrau, não a linha de chegada: paga o caixa, mas ainda não o desgaste nem o trabalho do produtor.
Depreciação: o custo que não emite boleto
É a perda de valor dos bens da propriedade ao longo do tempo, pelo uso, pelo desgaste natural, pela obsolescência tecnológica.
- Tratores e colheitadeiras, galpões, sistemas de irrigação, matrizes: tudo se consome produzindo.
- Mesmo sem boleto este mês, o equipamento está sendo gasto a cada hora de operação.
Depreciação linear
- Valor do bem: preço de compra (novo ou estado atual).
- Valor residual: o que ainda vale ao fim da vida útil (revenda, sucata).
- Vida útil: em anos ou em horas de uso; máquinas costumam usar as duas.
Dividir a depreciação anual pelas horas trabalhadas dá o custo por hora de máquina: a base do custo de cada operação mecanizada.
COT: paga, repõe e remunera
Dois custos que não são desembolso imediato, mas garantem a saúde patrimonial de longo prazo: a reposição do que se desgasta e a remuneração do trabalho de gestão do produtor.
Pergunta que o COT responde: a receita paga os custos operacionais e ainda remunera o trabalho do produtor? Cobrir o COT é o indicador mínimo de sustentabilidade.
O autoengano de trabalhar de graça
O produtor que não lança o próprio salário está subsidiando o projeto com trabalho não pago, e chamando isso de lucro.
- Teste simples: quanto custaria contratar alguém para fazer o que o produtor faz? Esse é o pró-labore.
- Vale também para a família: filhos que tiram leite todo dia são mão de obra, e precisam reaparecer como custo.
CT: a pergunta do investidor
A camada mais completa: além de operar, o projeto precisa render mais que a melhor alternativa disponível para os mesmos recursos.
Pergunta que o CT responde: o retorno supera a melhor alternativa, arrendar a terra, aplicar o capital? A rentabilidade do projeto, neste curso, é sempre medida sobre o CT.
Custo de oportunidade: o que você deixa de ganhar
- Da terra própria: o arrendamento que ela renderia se não fosse usada no projeto. Referência prática: % do valor da terra ou sacas/ha da região (sindicatos rurais).
- Do capital: o rendimento que o dinheiro imobilizado em máquinas, animais e insumos teria numa aplicação financeira de referência.
Não é dinheiro que sai, é dinheiro que deixa de entrar por se ter escolhido produzir. Na planilha IRGA da T3: "renda dos fatores", R$ 2.743/ha (17,4% do CT).
As quatro leituras da receita
| Situação | O que significa |
|---|---|
| RB < COE | Insustentável: perde caixa a cada saca. Parar ou reformular já. |
| RB ≥ COE | Paga o caixa, mas ainda não o desgaste nem o trabalho do produtor. |
| RB ≥ COT | Sustentabilidade mínima: paga custos, repõe patrimônio, remunera o gestor. |
| RB ≥ CT | Viabilidade plena: gera riqueza acima da melhor alternativa. |
A sequência de perguntas é sempre a mesma, para qualquer cultivo ou criação, e cada degrau vira uma margem com nome próprio.
Sem registro, o orçamento é chute
Todo esse aparato depende de um elemento que nenhuma fórmula substitui: o dado real do campo, a função de controle do ciclo de gestão.
- Histórico por talhão valida premissas, compara safras e alimenta a análise marginal.
- Bancos usam esses registros para avaliar risco e conceder crédito.
- Solução sem custo: Google Forms no celular → planilha automática → análise por talhão.
O trator da propriedade familiar
O trator de 75 cv é a máquina típica da propriedade familiar gaúcha: lavoura, pecuária de leite, fruticultura. Premissas do caso:
- Valor de compra: R$ 200.000 (mercado 2026: R$ 160–260 mil conforme marca e configuração).
- Valor residual: R$ 40.000 (20% após a vida útil).
- Vida útil: 10 anos ou 10.000 horas (1.000 h/ano de uso).
Premissas declaradas, como sempre: valor com cotação real da região, residual e vida útil justificados.
Quanto custa o trator por ano e por hora
Cada hora de motor consome R$ 16 do patrimônio, antes do diesel, do operador e da manutenção. É a primeira parcela do custo-hora da máquina.
O mesmo trator, três propriedades
| Área atendida | Depreciação/ha | Leitura |
|---|---|---|
| 40 ha | R$ 400 | Máquina cara para a escala: avaliar serviços a vizinhos ou compra conjunta |
| 80 ha | R$ 200 | Uso equilibrado para o porte |
| 160 ha | R$ 100 | Custo fixo diluído, máquina bem aproveitada |
Os R$ 16.000/ano não mudam, é custo fixo (T3). O que muda é sobre quantos hectares ele se dilui. Máquina parada é depreciação sem produção.
Três bens, a mesma divisão
Numa propriedade de 80 ha, o trator não é o único bem que se desgasta. A conta se repete para tudo que a atividade usa sem consumir de uma vez:
| Bem | Valor | Residual | Vida útil | Depreciação/ano |
|---|---|---|---|---|
| Trator 75 cv | 200.000 | 40.000 | 10 anos | 16.000 |
| Galpão de máquinas | 120.000 | 0 | 25 anos | |
| Grade e pulverizador | 18.000 | 0 | 15 anos | |
| Depreciação anual da propriedade | ||||
Galpão e implementos entram com residual zero: ao fim da vida útil não há revenda prevista. Residual é premissa declarada, não regra fixa.
O patrimônio que se consome todo ano
| Bem | Valor | Residual | Vida útil | Depreciação/ano |
|---|---|---|---|---|
| Trator 75 cv | 200.000 | 40.000 | 10 anos | 16.000 |
| Galpão de máquinas | 120.000 | 0 | 25 anos | 4.800 |
| Grade e pulverizador | 18.000 | 0 | 15 anos | 1.200 |
| Depreciação anual da propriedade | 22.000 | |||
São R$ 22.000 por ano de patrimônio se consumindo, sem um boleto sequer. É o número que falta na conta de quem só olha o extrato.
O "lucro" que era prejuízo
A mesma propriedade de 80 ha. O produtor comemora: sobraram R$ 40.000 no caixa (RB − COE). Ele retira R$ 3.000 por mês para viver.
A depreciação é a soma do inventário. O pró-labore está escrito na própria linha.
Onde o sinal vira
Pagou as contas, mas consumiu patrimônio e trabalhou de graça, e ainda faltaria a remuneração da terra e do capital (CT). As três camadas mostram resultados diferentes para o mesmo ano.
Quanto essa lavoura precisava colher
A estrutura de custo não muda de uma safra para outra. O que muda é a colheita. Soja a R$ 132,50/sc:
| Safra | sc/ha | Receita bruta/ha | Veredito |
|---|---|---|---|
| Excelente | 55 | ||
| Boa | 48 | ||
| Fraca | 40 | ||
| Quebra | 34 |
O COT soma ao COE os R$ 22.000 de depreciação e os R$ 36.000 de pró-labore, diluídos nos 80 ha. O CT acrescenta R$ 1.475/ha de remuneração da terra e do capital.
Quatro safras, quatro respostas
| Safra | sc/ha | RB/ha | Veredito |
|---|---|---|---|
| Excelente | 55 | 7.287,50 | RB ≥ CT: viabilidade plena, folga de R$ 287,50/ha |
| Boa | 48 | 6.360,00 | RB ≥ COT: sustentabilidade mínima, não remunera a terra |
| Fraca | 40 | 5.300,00 | RB ≥ COE: paga o caixa e consome patrimônio |
| Quebra | 34 | 4.505,00 | RB < COE: prejuízo em caixa, parar ou reformular |
A safra fraca é o ano da conta anterior: sobra de caixa de R$ 40.000 e resultado de − R$ 18.000 sobre o COT. Vinte e uma sacas separam a primeira linha da última, e elas atravessam os quatro degraus da escada.
O mesmo trator, agora no leite
Uma propriedade familiar de leite usa o mesmo trator de 75 cv para fazer silagem e tratar o gado. Premissas do caso:
- 25 vacas em lactação, cerca de 410 litros por dia: 150.000 litros no ano.
- Leite a R$ 2,40/L: receita de R$ 360.000 no ano.
- Sobra de caixa (receita − COE): R$ 70.000.
- O casal tira o leite e retira R$ 4.500 por mês para viver.
Valores de exemplo, declarados como premissa. No projeto, cada um precisa de fonte e data.
O que se desgasta tirando leite
| Bem | Valor | Residual | Vida útil | Depreciação/ano |
|---|---|---|---|---|
| Trator 75 cv | 200.000 | 40.000 | 10 anos | 16.000 |
| Ordenhadeira canalizada | 45.000 | 5.000 | 10 anos | |
| Resfriador 2.000 L | 40.000 | 4.000 | 12 anos | |
| Sala de ordenha e galpão | 200.000 | 0 | 25 anos | |
| Depreciação anual da propriedade | ||||
A mesma fórmula do trator: (valor − residual) ÷ vida útil. O exemplo considera só máquinas e benfeitorias. Como tratar o rebanho na conta fica para a aula de pecuária.
O leite também esconde o sinal
Entrou dinheiro todo mês e as contas foram pagas. Mesmo assim, a atividade consumiu patrimônio e pagou ao casal menos do que o trabalho vale.
No leite, o pró-labore pesa mais do que na lavoura: a ordenha costuma ser duas vezes por dia, todos os dias do ano.
Quanto o litro precisava valer
A estrutura de custo é a mesma o ano todo. O que muda é o preço que a indústria paga no mês:
| Preço do litro | Receita no ano | Veredito |
|---|---|---|
| R$ 2,80 | ||
| R$ 2,60 | ||
| R$ 2,10 | ||
| R$ 1,80 |
COE de R$ 290.000; COT soma R$ 31.000 de depreciação e R$ 54.000 de pró-labore; CT acrescenta R$ 30.000 de remuneração da terra e do capital. Tudo dividido por 150.000 litros.
Na soja muda a colheita; no leite, o preço do mês
| Preço do litro | Receita no ano | Veredito |
|---|---|---|
| R$ 2,80 | 420.000 | RB ≥ CT: viabilidade plena, folga de R$ 0,10/L |
| R$ 2,60 | 390.000 | RB ≥ COT: sustentabilidade mínima, não remunera terra e capital |
| R$ 2,10 | 315.000 | RB ≥ COE: paga o caixa e consome patrimônio |
| R$ 1,80 | 270.000 | RB < COE: prejuízo em caixa, parar ou reformular |
Em 2026, o valor de referência do Conseleite-RS foi de cerca de R$ 2,06 em janeiro a R$ 2,53 em abril. A mesma propriedade passou, em poucos meses, por mais de um degrau da escada.
Valores projetados divulgados pelo Conseleite-RS (cálculo da Universidade de Passo Fundo). O preço pago a cada produtor varia com volume e qualidade.
Três lições do caso
- Depreciação se calcula em minutos: três números e uma divisão, escolha do produtor, não limitação técnica.
- Custo fixo depende da escala: "quantos hectares essa máquina atende?" ou "quantos litros essa sala de ordenha produz?" vale para cada bem do inventário.
- Sobra de caixa não é lucro, na lavoura e no leite: só o resultado sobre o COT, e depois sobre o CT, diz se a atividade se sustenta.
Tarefa de saída: parte 1
Confiram item a item contra o manejo do passo 2: prática sem custo ou custo sem prática é linha errada.
Tarefa de saída: parte 2
O simulador fecha COE → COT → CT na hora. Os três valores do projeto de vocês são definidos nesta etapa.
Checklist de saída
- Itens diretos valorados (coeficiente × preço) no passo 3
- Automáticos (%) conferidos, sem lançamento em duplicidade
- Depreciação lançada para cada máquina e benfeitoria do manejo
- Pró-labore e oportunidade da terra e do capital no passo 4
- COE → COT → CT fechados e anotados
Terminou antes? Compare o CT/unidade do projeto com a RL/unidade do passo 1.
P1 na S7, depois, as margens
Na próxima semana, a P1: o projeto com receita e custos fechados é a base da avaliação. Na T5 (S9), esses números ganham interpretação: MB, ML e lucro, o que cada margem diz para o curto, médio e longo prazo.
- Revisar no site: Parte II, blocos II.4 (COE, COT e CT) e II.5 (registro) + autoavaliação do bloco em casa.
- Chegar na P1 com: passos 0 a 4 completos no simulador; premissas com fonte e data.
Fontes e créditos
Referência bibliográfica geral: KAY, Ronald D.; EDWARDS, William M.; DUFFY, Patricia A. Gestão de propriedades rurais. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014. E-book. ISBN 9788580553963. Disponível em: Minha Biblioteca. Acesso em: 29 maio 2026. Dados, preços e taxas citados nos exemplos: fontes indicadas em aula e atualizadas a cada oferta.
Material didático elaborado pelo Prof. Róberson Macedo de Oliveira, Colégio Politécnico da UFSM, com apoio de inteligência artificial (Claude, Anthropic) na organização didática e diagramação. O conteúdo pedagógico, a metodologia e as decisões de planejamento são de responsabilidade do docente.
Material de estudo: Parte II.4: COE, COT e CT · Parte II.5: Registro e controle · autoavaliação da Parte II · simulador de projetos · versão impressa deste material = apostila da aula (Ctrl+P).