Aula teórica · projeção e estudo
T3
Movimento 2 · Medir

Do manejo técnico ao custo

Colégio Politécnico da UFSM
Prof. Róberson Macedo de OliveiraColégio Politécnico da UFSM
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Conceito · a pergunta da aula

Quanto custa produzir o que você declarou?

O manejo que o grupo descreveu no projeto consome insumo, máquina ou trabalho em cada prática, e tudo isso tem preço.

Regra de ouro do curso toda prática de manejo declarada precisa reaparecer como custo

Manejo sem custo correspondente e custo sem manejo que o justifique são falhas do projeto.

Conceito · diagnóstico técnico

A lógica que não muda

Todo projeto sério começa por um diagnóstico técnico: a leitura objetiva da realidade física que será trabalhada. É ele que transforma descrição qualitativa em números.

Do campo à planilha diagnóstico técnico → coeficientes técnicos → insumos e recursos → custos

A natureza do diagnóstico muda conforme a atividade (laudo de solo, estrutura do rebanho, sistema de produção), mas a cadeia é sempre essa.

Conceito · a ponte

Coeficiente técnico: a ponte entre manejo e planilha

Coeficiente técnico é a quantidade de insumo ou serviço por unidade de produção: kg de ureia por hectare, ração por animal/dia, horas de trator por talhão.

Cada linha do orçamento custo do item = coeficiente técnico × preço unitário

O diagnóstico fornece o coeficiente; a pesquisa de preço (T2) fornece o preço. Um coeficiente estimado sem base erra o custo inteiro, por isso o diagnóstico vem primeiro.

Conceito · diagnóstico por atividade · 1/3

Agricultura: o laudo de solo

Nenhuma lavoura séria começa sem análise de solo. O laudo é a origem dos maiores custos variáveis de qualquer cultura: calagem e adubação de base e cobertura.

  • Lê-se o laudo, consulta-se o Manual CQFS-RS/SC (11ª ed., 2016), obtém-se a dose: calcário em t/ha, adubo em kg/ha.
  • Em trigo de alta tecnologia (60 sc/ha esperadas), fertilizantes chegam a ~39% do custo de produção (CEPA/Epagri, safra 2026).
Técnico curvado na lavoura retirando amostra de solo com trado, ao lado de um balde de coleta, entre as linhas de milho recém-emergido
coleta da amostra na lavoura · domínio público, Tim McCabe/USDA-NRCS

A análise custa R$ 65 a R$ 150 por amostra e também é requisito do crédito rural (Parte IV.2) — é o primeiro item da planilha, porque fundamenta todos os outros.

Conceito · diagnóstico por atividade · 2/3

Zootecnia: estrutura e evolução do rebanho

O equivalente ao laudo é responder: quantos animais de cada categoria existem, e como esse número evolui no tempo?

  • A estrutura do rebanho define ração por animal/dia, vacinas por categoria, sal mineral por cabeça/mês, cada um, um coeficiente técnico.
  • Vaca em lactação, vaca seca, novilha e terneira têm perfis de custo completamente diferentes.
Rebanho de corte junto à vegetação de campo, com vacas adultas e terneiros de pelagens e portes diferentes na mesma tropa
rebanho de corte no Pampa, Bagé/RS · CC BY-SA 3.0, Paula Cavalheiro
Erro frequente Tratar o rebanho como número único ("100 animais") distorce ração e sanidade. A calculadora (rebanho.html) mostra o efeito por categoria.
Conceito · rebanho estabilizado · a evolução no tempo

Um rebanho que não cresce nem encolhe

Premissas: natalidade 80% · mortalidade de bezerros 5% · descarte anual de matrizes 20% · 1 touro para 25 vacas · vida útil do touro 4 anos.

AnoMatrizesTourosNascim. M/FDesmame M/FDescarte vacasNovilhas retidasExcedente vendaTouro descarte
1100440 / 4038 / 38202038 M + 18 F1
2100440 / 4038 / 38202038 M + 18 F1
3100440 / 4038 / 38202038 M + 18 F1
4100440 / 4038 / 38202038 M + 18 F1
5100440 / 4038 / 38202038 M + 18 F1
6100440 / 4038 / 38202038 M + 18 F1

Reparem: os números se repetem ano após ano — é isso que "estabilizado" significa. Cada novilha retida este ano só entra como matriz daqui a ~2-3 anos (recria + primeira cria); mude a taxa de descarte ou a retenção, e essa tabela inteira muda.

Conceito · diagnóstico por atividade · 3/3

Fruticultura: o sistema de produção

No pomar, o diagnóstico é a definição do sistema: decisões agronômicas de longo prazo que fixam os custos por 15 a 20 anos.

  • O espaçamento define o número de mudas por hectare, o coeficiente central da implantação.
  • Particularidade única: a fase de formação, 2 a 5 anos em que os custos ocorrem por inteiro e a receita é nula.
Pomar jovem com mudas tutoradas plantadas em fileiras regulares, evidenciando o espaçamento entre plantas e entre linhas
pomar em fase de formação · CC BY-SA 2.0, Dave Bushell/Geograph

Implantação (investimento amortizável) não se confunde com custeio anual (COE recorrente).

Conceito · levantar antes de classificar

O inventário do que a atividade consome

Antes de classificar, é preciso listar tudo. Um roteiro que evita esquecimentos:

Percorra o calendário da atividade mês a mês: o que acontece na lavoura ou no rebanho em cada momento, e o que cada evento consome.

Conceito · classificação

Listar não basta: é preciso classificar

A classificação determina como cada custo se comporta quando a produção muda, e como tratá-lo em cada análise.

Três critérios de classificação para o mesmo gasto, cada um responde a uma pergunta diferente. Metodologia: Matsunaga et al. (IEA), base do Campo Futuro/CNA.

Conceito · par 1

Variáveis × fixos

Custos variáveis (CV)

Variam com a escala de produção: mais área, mais custo; menos área, menos custo.

  • Sementes, fertilizantes, corretivos, defensivos
  • Combustível das operações, mão de obra temporária
  • Pecuária: ração, sal mineral, vacinas, vermífugos

Custos fixos (CF)

Existem independentemente do volume. Mesmo em ano sem safra, permanecem: remuneram a estrutura, não a produção.

  • Depreciação de máquinas e benfeitorias
  • Arrendamento fixo, pró-labore, mão de obra permanente
  • ITR, seguro da propriedade
Conceito · par 1 · na dúvida

O teste do ano sem safra

Na dúvida, pergunte: se eu não plantar nada este ano, esse gasto continua existindo?

Segundo teste, equivalente: se eu dobrar a área, esse gasto dobra junto? Dobra → variável; não dobra → fixo.

Alguns itens resistem aos dois testes, energia da irrigação, por exemplo. Esse caso reaparece no exemplo do arroz.

Conceito · par 2

Diretos × indiretos

Este par importa quando a propriedade tem mais de uma atividade: soja e milho, lavoura e pecuária.

Sem rateio declarado Jogar o custo do gerente inteiro numa atividade só faz a outra parecer mais lucrativa do que é, e a decisão de expandir sai errada.
Conceito · par 3

Explícitos × implícitos

A classificação que separa resultado financeiro de resultado econômico.

Explícitos

Desembolsos: aparecem no extrato bancário. Sementes, salários, diesel, frete.

Implícitos

Não saem do caixa, mas têm valor econômico real: depreciação, custo de oportunidade da terra própria, pró-labore não sacado.

O erro mais comum da gestão rural Ignorar os implícitos. Quem não contabiliza a depreciação do trator acha que lucrou, até o trator quebrar e não haver reserva para substituí-lo.
Conceito · a estrutura que a classificação alimenta

Onde a classificação se encaixa

Os itens classificados serão somados em três camadas, a estrutura Matsunaga/IEA usada pelo Campo Futuro/CNA. Cada camada responde a uma pergunta diferente do produtor:

Nível de custoO que compõe?Pergunta que responde
COECustos diretos, variáveis e explícitos: insumos, diesel, mão de obra contratada."Consigo pagar as contas deste ano e continuar na atividade no curtíssimo prazo?"
COTCOE + custos implícitos de reposição: depreciação de máquinas e mão de obra da própria família."Consigo repor meu maquinário e sustentar minha família no médio prazo sem me endividar?"
CTCOT + custos de oportunidade: remuneração sobre o capital investido e sobre a terra."Vale a pena continuar produzindo, ou eu ganharia mais arrendando a terra e investindo no mercado?"

RL − cada camada = a margem correspondente. O trabalho desta aula é ter a lista completa e bem classificada: sem ela, essa soma erra, e a interpretação também.

Conceito · agricultura de precisão

Quando o coeficiente vira mapa

Na agricultura de precisão, o coeficiente técnico deixa de ser um número único por lavoura: a taxa variável aplica dose diferente em cada zona de manejo.

  • O laudo de solo vira grade de amostragem, vários laudos georreferenciados.
  • O custo do adubo passa a ser Σ (dose da zona × área da zona × preço), a mesma soma por zonas que fizemos com a receita na T2.
Mapa de produtividade de uma lavoura de soja gerado por monitor de colheita, com faixas coloridas mostrando rendimentos distintos dentro do mesmo talhão
mapa de produtividade da soja: zonas dentro do mesmo talhão · CC BY-SA 3.0, ISUcyGrain

A pergunta econômica, a economia de insumo paga o custo da tecnologia, fica em aberto por ora.

Exemplo RS · arroz irrigado

Arroz irrigado na metade sul

O IRGA publica todo ano o custo médio ponderado do arroz irrigado gaúcho: média de Uruguaiana (Fronteira Oeste), Cachoeira do Sul, Pelotas, Bagé, São Lourenço do Sul e Santo Antônio da Patrulha.

  • Safra 2025/26: sistema cultivo mínimo, publicação de junho de 2026.
  • Produtividade média: 174,79 sc/ha (média das três safras anteriores).
Lavoura de arroz irrigado em área de várzea, com o arroz ainda verde estendendo-se plano até a mata e o casario ao fundo
lavoura de arroz irrigado em várzea, Sertão Santana/RS · CC BY-SA 3.0 BR, Paulo RS Menezes

É um orçamento completo e público, feito com a mesma lógica que o projeto de vocês: manejo típico → coeficientes → custos. A leitura a seguir aplica os critérios da aula.

Exemplo RS · a regra de ouro em ação

Cada prática reaparece como custo

Prática declaradaItens que ela gera na planilha IRGA
Irrigação por inundaçãodiesel e energia das bombas, água, canais e condutos, taipas, aguador
Adubação conforme laudoadubo de base e cobertura, ureia, aplicação
Controle fitossanitárioagroquímicos, aviação agrícola
Colheita mecanizadacombustível, manutenção, transportes internos, secagem, frete

Teste reverso: se o projeto declara "controle de invasoras" e a planilha não tem herbicida nem aplicação, falta uma linha.

Exemplo RS · a estrutura do custo

O custo do arroz, por camadas

Despesas de custeio (insumos, operações, salários)R$ 8.551/ha
+ outras despesas (frete, secagem, taxas, seguro)R$ 2.143/ha
+ despesas financeiras (juros do custeio)R$ 1.087/ha
= custo variável · 74,7% do totalR$ 11.781/ha
+ depreciação (custo fixo)R$ 1.246/ha
+ renda dos fatores (capital e terra)R$ 2.743/ha
= custo total da safra 2025/26R$ 15.770/ha

Fonte: IRGA, Custo de Produção do Arroz Irrigado 2025/26 (junho 2026). Três em cada quatro reais são custo variável, o arroz é uma atividade intensiva em insumo e operação.

Exemplo RS · discussão

Energia da irrigação: fixa ou variável?

Na planilha IRGA, energia elétrica da irrigação (R$ 429/ha) está no custeio, variável. Mas a conta de luz do bombeamento tem duas partes:

  • Consumo (kWh): varia com as horas de bombeamento: mais área ou mais levantes, mais consumo. Comportamento de variável.
  • Demanda contratada: o valor pago pela potência disponível, que vence mesmo com as bombas desligadas. Comportamento de fixo.
Conjunto motobomba instalado na borda de uma lavoura, com motor elétrico, caixa de ligação, tubulação e registros
motobomba elétrica de irrigação de arroz · domínio público, USDA-NRCS
O que importa Mais que o rótulo, o critério: classifique pelo comportamento do gasto na sua propriedade, e declare o critério no projeto.
Exemplo RS · custo versus preço de venda

R$ 90 de custo, e o preço?

Custo por saca: IRGA 2025/26 R$ 15.770/ha ÷ 174,79 sc/ha = R$ 90,22/sc

A referência de preço usada na própria planilha: R$ 61,02/sc. O custo variável sozinho já dá R$ 67,40/sc, acima do preço.

Em aula: conferir o indicador CEPEA do arroz em casca do dia e refazer a comparação.

Exemplo RS · o que fica

Três lições do caso

Para o projeto de vocês O orçamento IRGA é o padrão de qualidade a imitar: completo, classificado, com fonte em cada número.
Mão no simulador · passo 2 · manejo

Tarefa de saída: parte 1

Simulador de projetos · passo 2 de 7manejo técnico
laudo de solo · estrutura do rebanho · sistema de produção
preparo, plantio, tratos, colheita, ou o ciclo do rebanho
kg/ha, L/animal/dia, horas de máquina
o que acontece em cada mês do ciclo

Descrevam o manejo como se explicassem a um técnico que vai executar: específico, quantificado, datado.

Mão no simulador · passo 3 · custos

Tarefa de saída: parte 2

Simulador de projetos · passo 3 de 7lista de custos
ex.: adubo de base 08-20-30
qual prática declarada gera este item
ex.: 300 kg/ha × R$ 3,26/kg
variável ou fixo · direto ou indireto

Rascunho vale, o refinamento e a soma vêm depois. O que não pode é faltar prática sem custo, a regra de ouro.

Mão no simulador · antes de sair da sala

Checklist de saída

Terminou antes? Confronte as duas listas: alguma prática sem custo? Algum custo sem prática?

Ponte · o que vem

T4: COE, COT e Custo Total

A lista está feita e classificada. Na próxima teórica ela vira orçamento em três camadas: COE, COT e CT, incluindo a depreciação linear e o custo de não remunerar a própria mão de obra.

A estrutura da T4 COE → COT (+ depreciação) → CT (+ remuneração dos fatores)
T3 · Do manejo técnico ao custo

Fontes e créditos

Referência bibliográfica geral: KAY, Ronald D.; EDWARDS, William M.; DUFFY, Patricia A. Gestão de propriedades rurais. 7. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014. E-book. ISBN 9788580553963. Disponível em: Minha Biblioteca. Acesso em: 29 maio 2026. Dados, preços e taxas citados nos exemplos: fontes indicadas em aula e atualizadas a cada oferta.

Material didático elaborado pelo Prof. Róberson Macedo de Oliveira, Colégio Politécnico da UFSM, com apoio de inteligência artificial (Claude, Anthropic) na organização didática e diagramação. O conteúdo pedagógico, a metodologia e as decisões de planejamento são de responsabilidade do docente.

Material de estudo: Parte II.1: Diagnóstico técnico · Parte II.3: Classificação dos custos · calculadora do rebanho · simulador de projetos · versão impressa deste material = apostila da aula (Ctrl+P).

T3 · Do manejo técnico ao custo 1 / 1