CPSEA101 · Técnico em Agricultura · Aula 3 de 14 · 19/08

O processo de sistematização

Docentes

Róberson Macedo de Oliveira

Ezequiel Redin

Colégio Politécnico UFSM Técnico em Agricultura
Sala de aula do Colégio Politécnico, docentes de pé apresentando o slide de abertura da disciplina de sistematização de experiências
Antes de começar

Da pergunta "por que sistematizar" ao eixo em aberto

Por que sistematizar

O que distingue uma sistematização de um relatório, de uma pesquisa e de um diagnóstico.

Os cinco tempos

De Jara Holliday, A a E, com o eixo de leitura escondido dentro do tempo B.

Um caso real, do início ao fim

Os cinco tempos aplicados a um galinheiro móvel, do esqueleto de metal ao produto final.

Tempo 1, antes do método

Por que sistematizar

"Sistematização nada mais é que organizar os conhecimentos, práticas e habilidades desenvolvidas por pessoas, agricultores e agricultoras, em determinado lugar e tempo." Tatiana Balem, Sistematização de experiências em fruticultura, UFSM/Colégio Politécnico, 2015
É

Interpretação crítica de uma experiência vivida, a partir do seu ordenamento e reconstrução, com o propósito de provocar aprendizagem (Jara Holliday, 2006; Cordula Eckert, EMATER/RS-ASCAR, 2008).

Não é
  • Relatório de visita, descreve o que viu e para aí
  • Pesquisa, parte de uma hipótese, não da vivência
  • Diagnóstico, vai atrás de um problema para resolver
Os protagonistas da sistematização são quem viveu a experiência, mesmo quando pedem apoio para realizá-la. O grupo assessora quem vive a experiência, ou vive ela mesmo, quando for o caso.
O método · Jara Holliday, 2006

Cinco tempos, uma sequência que se refaz

A

Ponto de partida

Viver a experiência e ter registro dela.

B

Perguntas iniciais

Objetivo, objeto, eixo, fontes, procedimentos.

C

Recuperação do processo

Reconstruir a história e ordenar por eixo.

D

Reflexão de fundo

Por que aconteceu da forma que aconteceu.

E

Pontos de chegada

Formular conclusões e comunicá-las.

Voltar atrás é comum. O eixo escolhido hoje muda depois da primeira visita, e a leitura muda de novo depois da segunda. Os cinco tempos não são etapas de formulário.
Tempo A, o ponto de partida

Viver a experiência

Galinheiro móvel entre as fileiras de um vinhedo, visto por uma câmera fixa, com data e hora sobrepostas na imagem
Foto: câmera fixa do galinheiro, 12/11/2025, acervo do docente
a1

Ter participado na experiência: presença efetiva, do grupo ou de quem o grupo entrevista e acompanha.

a2

Ter registros da experiência: caderno de campo, fotografia, entrevista gravada.

Sem vivência registrada, não há o que sistematizar. É por isso que esta câmera ficou instalada no galinheiro do caso que vocês vão ver mais adiante: sem esse registro contínuo, não haveria o que reconstruir depois.
Tempo B, as perguntas iniciais

Antes de sair a campo, cinco perguntas

Fileira de videiras carregadas de uvas, cobertas por manta protetora, em dezembro de 2023, antes da construção do galinheiro
Foto: acervo do docente, dezembro de 2023, o vinhedo antes do galinheiro
b1, definir o objetivo

Para que queremos sistematizar?

  • Para compreender a experiência em profundidade e melhorá-la
  • Para partilhar com quem viveu algo parecido
  • Para contribuir com reflexão teórica surgida da prática
  • Para influenciar políticas e planos a partir de aprendizagens reais
b2, delimitar o objeto

Não é cobrir a história inteira desde a origem, é escolher o período mais relevante para o caso.

No caso do galinheiro, que vocês vão ver mais adiante: o objetivo central era permitir que as aves pastejassem soltas, adubando as entrelinhas do vinhedo a cada giro, com menos trabalho manual graças à automação. Isolar o plantel do contato com pássaros silvestres, diante do risco de gripe aviária, era uma vantagem a mais. O objeto foi delimitado à obra, iniciada em 25 de julho de 2024, esta foto é de dezembro de 2023, antes do galinheiro, fora do período escolhido.
O método inteiro, num só esquema
A
a1 · vivênciapresença efetiva na experiência
a2 · registrocaderno, foto, entrevista
→
B
b1 · objetivopara que sistematizar
b2 · objetoperíodo e recorte
b3 · eixofio condutor da leitura
b4 · fontesde onde vem a informação
b5 · procedimentosquem, quando, como
→
C
c1 · reconstruirlinha do tempo, decisões
c2 · ordenarorganizar pelo eixo
→
D
d1 · sintetizarpartes e suas relações
d2 · interpretarpor que aconteceu assim
→
E
e1 · concluirafirmações abertas
e2 · comunicarestratégia para o público

Esta folha, com um exemplo em cada item, para imprimir: esqueleto-cinco-tempos.html

Tempo B, b3, identificar o eixo, 1 de 5

O eixo, o fio condutor da sistematização

Não dá para sistematizar tudo o que aconteceu. O eixo escolhe o que fica em foco e evita a dispersão na hora de interpretar.

Canteiros de um horto orgânico urbano, com diferentes hortaliças em fileiras bem demarcadas
Foto: SamHolt6, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
Meio ambiente

Como a propriedade lida com solo, água, mata nativa e biodiversidade: o que conserva, o que degrada, o que mudou de manejo ao longo do tempo.

Produção agroecológica ou orgânica

Manejo sem insumos de síntese, diversificação de cultivos, ciclos que se fecham dentro da própria propriedade.

Tempo B, b3, identificar o eixo, 2 de 5

Como a propriedade produz, e como ela inova

Lavoura de soja crescendo sobre a palhada da cultura anterior, sem revolvimento do solo
Foto: Lynn Betts, USDA NRCS, Wikimedia Commons, domínio público
Inovação e adaptação tecnológica

Uma tecnologia, mesmo simples ou de baixo custo, adaptada à realidade da propriedade, e por que ela pegou ou não pegou. É o eixo do caso do galinheiro que vocês vão ver mais adiante.

Alternativas de produção

Um sistema de cultivo ou criação fora do padrão da região, e o que motivou a mudança.

Tempo B, b3, identificar o eixo, 3 de 5

Quem fica, e por que se visita

Centenas de jovens reunidos num auditório, em conferência nacional de um programa de juventude rural
Foto: Lance Cheung, USDA, Wikimedia Commons, domínio público
Sucessão e juventude rural

Quem vai continuar a atividade, e o que pesa nessa decisão de ficar ou sair da propriedade.

Lazer e turismo rural

A propriedade como espaço de visita, hospedagem ou vivência, e a renda ou o vínculo que isso cria.

Tempo B, b3, identificar o eixo, 4 de 5

Força de grupo, caminho até o mercado

Sede de uma cooperativa de produtores rurais, prédio simples com placa identificando a organização
Foto: Erinamukuta, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
Organização social

Cooperativa, associação, grupo informal: como a ação coletiva muda o que uma família sozinha conseguiria.

Construção de mercados

Canais de venda criados fora do circuito tradicional: feira, venda direta, encomenda.

Tempo B, b3, identificar o eixo, 5 de 5

O que se aprende, o que se agrega

Processamento artesanal de ricota, leite coagulado sendo mexido num tacho
Foto: 8w9d, Wikimedia Commons, CC0
Educação do campo

Escola, curso técnico, troca de saberes entre gerações ou entre propriedades vizinhas.

Agregação de valor

Processar, embalar ou transformar o produto bruto: o que muda no preço, e o que muda no trabalho.

Ponto de atenção, vale para os dez O eixo não é um problema a resolver. É um recorte de leitura, escolhido pelo grupo e declarado como escolha.
Tempo B, uma decisão adiada de propósito

Hoje o eixo não se fecha

Vista geral de um vinhedo com o galinheiro móvel entre as fileiras, ao fundo
Foto: acervo do docente, o mesmo vinhedo, várias leituras possíveis antes da primeira visita
O que cada grupo leva para o campo

Dois ou três eixos em estudo, não um só escolhido. A escolha definitiva acontece depois da primeira saída coletiva.

Por quê

Quem chega à propriedade com o recorte fechado deixa de ver o que não estava procurando, e a visita vira busca de confirmação, não observação.

A escolha fecha depois da primeira saída de campo coletiva, com base no material colhido lá. Até lá, os eixos em estudo ficam registrados pelo grupo e devem ser revisitados pelo grupo antes da vivência.
Tempo B, b4 e b5

Fontes e procedimentos

Câmera Wi-Fi e ventilador de parede montados na estrutura interna do galinheiro
Foto: acervo do docente, câmera e ventilador automatizados, parte das fontes do caso
b4, fontes de informação

Entrevistas, pesquisa documental, revisão de arquivos. O critério é o eixo: centrar-se no que se vai usar, para não perder tempo compilando o que não interessa.

b5, procedimentos

Um plano operacional: que tarefas, quem responde por cada uma, quem participa, quando e como. Que instrumentos e técnicas, que recursos, que cronograma.

É exatamente isso que a próxima aula entrega pronto: o roteiro de campo é o plano operacional de b5 aplicado à visita da turma.

No caso do galinheiro: fontes foram a câmera, os dispositivos automatizados (lâmpada, tomada, sensor de temperatura) e o relato dos pais, que operavam o deslocamento; procedimentos incluíram o cronograma de instalação, o giro de três dias entre deslocamentos e os testes de automação.

Tempo C, recuperação do processo vivido

Reconstruir antes de interpretar

Galinheiro móvel visto de longe, ao final de uma fileira do vinhedo com a grama recém-roçada, em dia claro
Foto: câmera fixa do galinheiro, 15/10/2025, acervo do docente
c1, reconstruir a história

Reconstrução ordenada, normalmente cronológica: os momentos mais importantes, as decisões tomadas, as mudanças que marcaram o ritmo. Linha do tempo ou narrativa.

c2, ordenar e classificar

Organizar a informação com o eixo como fio condutor. Ser o mais descritivo possível, ainda não é hora de concluir.

Toda reconstrução de história depende de registro. A câmera fixa do galinheiro registrou a mesma cena, mês a mês, ao longo de mais de um ano (veja mais adiante). O caderno de campo do seu grupo cumpre a mesma função, numa escala de semanas.

Tempo D, a reflexão de fundo

"Por que aconteceu da forma que aconteceu?"

Comedouro automático improvisado com balde e cano de PVC, acoplado à lateral do galinheiro
Foto: acervo do docente, abril de 2025, comedouro automático montado com peças reaproveitadas
d1, analisar e sintetizar

Analisar cada etapa separadamente e depois as relações entre elas. É aqui que surgem as questões críticas, as partes e o todo, o individual e o coletivo.

d2, interpretação crítica

Retomar as questões críticas, interrogando as causas. Identificar tensões e contradições, entender a lógica do que aconteceu, confrontar com outras experiências e com a teoria.

Um balde com um temporizador embaixo e um cano de PVC adaptado como cocho viraram o comedouro, embaixo do ninho, para aproveitar espaço. O balde guardava ração para quase dez dias, no consumo de 120g por ave ao dia, com vinte aves. O cocho, com menos de um metro, ficou no limite para esse número de aves, uma lição que só apareceu depois de testado. Encontrar essa lógica, sem julgá-la, é o que o tempo D pede.
Tempo E, os pontos de chegada

Formular e comunicar

Prato com pedaços de galinha ao molho e polenta, ao lado de um copo de suco de uva, servidos à mesa
Foto: acervo do docente, janeiro de 2025, galinha, polenta e suco de uva de produção própria
e1, formular conclusões

Afirmações abertas, não definitivas, pontos de partida para novas aprendizagens. Precisam corresponder ao objetivo definido lá em b1.

e2, comunicar as aprendizagens

Não se limitar ao documento final. Pensar numa estratégia voltada ao público que vai receber, diversificada, criativa, atraente.

É assim que termina o caso do galinheiro também, não numa planilha, na mesa. O produto final da disciplina segue o mesmo raciocínio: banner, cartilha, boletim, vídeo ou podcast, escolhidos mais adiante no semestre pensando em quem precisa ver aquilo, e devolvidos a quem viveu a experiência.

Antes do caso, a inspiração

Pasturebird, a mesma ideia em escala industrial

Uma fazenda nos Estados Unidos que move fileiras inteiras de aves todos os dias, para renovar a pastagem e reduzir trabalho manual. O galinheiro do caso a seguir é a mesma lógica, em escala doméstica.

Estrutura móvel em túnel, de grande porte, sobre rodas, num pasto com gado ao fundo

A estrutura em túnel, sobre rodas, entre o pasto e o gado.

Centenas de frangos soltos sob a mesma estrutura em túnel, com comedouros pendurados em vermelho

Por dentro: aves soltas, comedouros pendurados, luz natural.

Fotos: Pasturebird, pasturebird.com, usadas aqui para ilustrar a inspiração do caso a seguir.
Um caso real, ponto de partida

2024, um galinheiro móvel dentro do vinhedo

Estrutura de metal ainda sem cobertura, em construção, ao lado de um deque de madeira, com ferramentas espalhadas no chão
Foto: acervo do docente, julho de 2024, início da construção do galinheiro móvel

Em 25 de julho de 2024, começou a montagem de um galinheiro móvel, inspirado no modelo americano Pasturebird, leve o bastante para se deslocar sozinho entre as fileiras de um vinhedo doméstico no Rio Grande do Sul, que têm 2,5 metros de largura entre linhas. A estrutura mede 2 metros de largura, para caber no espaço.

A ideia central: aves soltas a pasto, ajudando no manejo do parreiral, adubando o solo e roçando a pastagem a cada giro de três dias, com menos trabalho manual graças à câmera e a alguns equipamentos domésticos de automação. Isolar o plantel do contato com pássaros silvestres, diante do risco de gripe aviária, foi uma vantagem a mais, não o motivo principal.

Fonte: acervo pessoal do docente. Quem operou o galinheiro no dia a dia foi o casal de pais do docente, 75 e 80 anos; a câmera registrou a rotina por mais de um ano, o dado bruto que mais tarde vira sistematização.

O caso em vídeo

O galinheiro indo e voltando entre as fileiras

Vídeo: acervo do docente, YouTube Shorts

Trinta segundos bastam para ver o que o texto só descreve: a estrutura leve, o giro entre as fileiras, as galinhas soltas no vinhedo.

Mais fotos e vídeos do processo completo, ao longo do ano, estão no álbum linkado mais adiante, no tempo C em imagens.
O mesmo caso, em cinco tempos

Do esqueleto de metal ao galinheiro em operação

A

Estrutura leve de 2m de largura, inspirada no modelo Pasturebird, montada entre fileiras de um vinhedo com 2,5m de entrelinha. Obra iniciada em 25/07/2024.

B

Eixo: inovação e adaptação tecnológica. Objetivo: aves soltas a pasto, adubando o parreiral com menos trabalho manual; a proteção contra gripe aviária foi uma vantagem a mais. Fontes: câmera, dispositivos automatizados, relato dos pais.

C

Da estrutura ao ninho com coleta externa, à automação (luz vermelha programada, comedouro por tempo, ventilador por sensor), em operação de 21/04/2025 a 31/10/2025, quando as gavinhas da parreira prenderam na tela.

D

Pontos fortes: adubação a cada giro de três dias, sem degradar o pasto, cobertura de inverno nas entrelinhas. Limites: rodas pequenas demais para os pais moverem, tambor de água opaco, fechamento automático do ninho nunca implementado.

E

Conclusão: cumpriu a função de adubação e reduziu o trabalho manual do dia a dia, mas parou no limite sazonal da estrutura fixa e deixou uma lacuna de automação em aberto, o fechamento do ninho.

O mesmo fio conduz os cinco tempos: o eixo declarado em B, inovação e adaptação tecnológica, é o que organiza C, orienta a pergunta de D e reaparece na conclusão de E. Um eixo mal declarado deixaria essa costura invisível.
Tempo C, em imagens, o mesmo galinheiro ao longo de um ano

A câmera reconstruiu o processo sozinha

Não foi um caderno de campo que fez esse registro, foi uma câmera de segurança programada para fotografar a mesma cena. O princípio é o mesmo do tempo C.

Galinhas dentro do galinheiro, foto noturna em infravermelho, primeira noite após a introdução do lote
08/05/2025
Vinhedo tomado por neblina espessa, com o galinheiro pouco visível ao fundo
06/06/2025
Fileira do vinhedo coberta de geada numa manhã fria de inverno
01/07/2025
Galinhas soltas ao redor do galinheiro, em dia claro de fim de inverno
29/08/2025
Galinheiro móvel visto de longe, ao final de uma fileira do vinhedo com a grama recém-roçada
15/10/2025
Sem esse arquivo mês a mês, a reconstrução da história dependeria só da memória, e a memória escolhe o que quer lembrar. É essa a diferença entre um relato de cabeça e uma sistematização apoiada em registro.

Álbum completo, com mais fotos e vídeos do galinheiro ao longo do ano: acervo do docente, Google Fotos.

Hoje você sai sabendo

Da teoria ao caso, o mesmo fio condutor

O que você aprendeu
  • Distinguir sistematização de relatório, pesquisa e diagnóstico
  • Os cinco tempos de Jara Holliday, de A a E
  • Por que o eixo não se escolhe sem antes ir a campo
  • Dois ou três eixos em estudo, prontos para a primeira visita
Próxima aula

Ferramentas para o levantamento de informações

Roteiro de campo em seis blocos, entrevista compreensiva e oficina de audiovisual, com Ezequiel. Vocês saem de lá com o instrumento pronto para a primeira saída de campo.

Referências citadas hoje: Balem (2015), ufsm.br. Jara Holliday (2006), edpopsus.epsjv.fiocruz.br. Eckert (2008), EMATER/RS-ASCAR.

Material de apoio: ficha técnica do galinheiro móvel, o exemplo de produto que fecha o tempo E do caso visto hoje.

Jornada Acadêmica Integrada Orientação a quem for submeter resumo, prazo e formato, conforme edital no Moodle.
Colégio Politécnico da UFSM, Técnico em Agricultura, CPSEA101, 2026/2 Material elaborado com auxílio de inteligência artificial, sob revisão e responsabilidade dos docentes