CPSEA101 · Técnico em Agricultura · Aula 2 de 14 · 12/08

Abordagem sistêmica, sistemas alimentares e cadeias produtivas

Duas coisas escondidas na mesma legenda: o sistema que você vai aprender a desenhar, e a cadeia que decide o preço dele.

Docentes

Róberson e Ezequiel

Colégio Politécnico UFSM Técnico em Agricultura
Antes de começar

Três tempos, uma noite só

Olhar sistêmico, propriedade como sistema e posição na cadeia, aplicados a um caso e depois colocar no papel.

O gancho

Um post, 922 comentários, e as camadas de um sistema alimentar que já estavam escritas nele.

A teoria

Os pressupostos do olhar sistêmico, a propriedade como sistema, e os três segmentos de qualquer cadeia.

No papel

Em grupo: desenhar uma propriedade e posicioná-la na cadeia, na mesma folha.

Tempo 1, antes do ovo, outro alimento

Café também bateu recorde em 2024

Ramo de cafeeiro com cerejas de café maduras, vermelhas, prontas para colheita
Foto: Jonathan Wilkins, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

O café viveu sua própria disparada, no mesmo ano da crise do ovo. Em 2024, os preços bateram recorde atrás de recorde nas bolsas internacionais: o arábica subiu quase 80% em Nova York, e o robusta mais que dobrou em Londres.

R$ 970 → 2.000saca de 60 kg de arábica no Brasil, dez/2023 a dez/2024: maior preço real desde 1997 (CEPEA)
R$ 740 → 1.800saca de 60 kg de robusta (conilon) no mesmo período

A seca prolongada e o calor depois de abril prejudicaram o enchimento dos grãos no Brasil. No Vietnã, maior exportador mundial de robusta, a produção caiu 17,2% pela seca: os dois maiores fornecedores do mundo faltando ao mesmo tempo.

Tempo 1, antes do ovo, outro alimento

E despencou: a maior queda desde o Plano Real

Grãos de café torrados em close, sobre superfície de papel kraft
Foto: Pen Waggener, Wikimedia Commons, CC BY 2.0

A alta não durou. Em fevereiro de 2026, o arábica fechou no menor patamar desde julho de 2025, queda de 14,3% só naquele mês. O motivo: a expectativa de uma safra recorde no Brasil em 2026/27, acima de 70 milhões de sacas.

-17,2%queda do café moído no varejo em 12 meses até julho de 2026 (IBGE/IPCA): a maior desde o início do Plano Real, em 1994
+82,2%tinha sido a alta acumulada em 12 meses até maio de 2025, no mesmo indicador
O Brasil é o maior produtor e exportador de café do mundo. Quando a safra brasileira vai bem, o preço internacional sente, e a cadeia inteira, do produtor ao consumidor, sente também.
Tempo 1, antes do ovo, outro alimento

Azeite: quando a Espanha perde a azeitona, o mundo sente

Mão usando um pente colhedor amarelo para colher azeitonas verdes e roxas direto do galho
Foto: Lionel Aubert, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O mesmo roteiro se repetiu com o azeite, só que a origem da crise foi ainda mais concentrada: a Espanha sozinha responde por cerca de 40% do azeite do mundo, e a seca bateu justamente lá.

1,5 mi t → 600 mil tprodução de azeitona na Espanha, das safras 2021/22 para 2022/23: -60%, por seca extrema
+112%alta no preço pago ao produtor espanhol no mesmo período; no varejo, o litro passou dos €10 na Espanha em 2023

Quando a safra espanhola quebra, não sobra alternativa suficiente em Itália, Grécia ou Portugal para segurar o preço global. Foi o que aconteceu entre 2022 e 2024.

Tempo 1, antes do ovo, outro alimento

A trégua durou pouco: fogo na Europa outra vez

Tronco de oliveira queimado por incêndio, visto de baixo para cima contra o céu
Foto: Dkoukoul, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

A produção europeia se recuperou rápido: a Espanha colheu 850 mil toneladas em 2023/24 e entre 1,4 e 1,6 milhão em 2024/25, derrubando o preço. No Brasil, o litro recuou 17% nos supermercados em 12 meses. Mas o verão europeu de 2026 trouxe calor acima de 40°C e incêndios que atingiram olivais na Espanha, Grécia, Itália e Portugal.

A Comissão Europeia já revisou para baixo a produção de azeite da UE em 2025/26, com quebra de 18% só na Grécia. O mesmo padrão de 2022 pode se repetir: menos azeitona, preço em alta de novo.

No Brasil, o Rio Grande do Sul é o maior produtor de azeite extravirgem do país, mas é um nicho premium: o país consome cerca de 100 milhões de litros por ano e produz menos de 1% disso. O preço na gôndola segue o mercado europeu, não a safra gaúcha.

Tempo 1, o gancho. Fevereiro de 2025

17,5 mil curtidas. 922 comentários.

Estava tudo escrito ali, nas mesmas quatro linhas.

Post do Instagram de @forbesbr perguntando o que está acontecendo com o preço dos ovos, com 17,5 mil curtidas e 922 comentários, 20 de fevereiro de 2025
@forbesbr, 20 de fevereiro de 2025
"Os consumidores brasileiros têm se deparado com caixas de ovos custando muito mais que o normal nas prateleiras dos supermercados. Isso é um reflexo direto da alta demanda pela proteína e também dos elevados custos de produção no setor, além das recentes ondas de calor e outros problemas que prejudicam a oferta."
"alta demanda pela proteína" jusante, consumo
"elevados custos de produção" montante, milho, soja, ração
"ondas de calor" ambiente, atravessa as duas
O post diagnosticou as três camadas de um sistema alimentar em quatro linhas. Dos 922 que comentaram, quantos leram assim? O problema não é falta de informação. É falta de leitura sistêmica.
Tempo 1, o contexto que ninguém puxou

Duas crises, mesmo ano, causas diferentes

Publicação do SBT News sobre o preço do ovo disparando nos Estados Unidos, com prateleiras vazias e limite de compra por pessoa, fevereiro de 2025
SBT News, 11 de fevereiro de 2025
Estados Unidos

Gripe aviária derruba o plantel de poedeiras. No varejo americano, a dúzia de ovos grandes classe A chega a US$ 6,23 em março de 2025, recorde da série.

Preço médio ao consumidor.

Brasil

O país não registrou gripe aviária em aves comerciais. Mesmo assim o ovo encareceu, porque a ração ficou mais cara: o milho subiu, com a área plantada na menor da série histórica da Conab.

Tempo 1, quem lucrou com a crise americana

Mesma crise, custo para uns, lucro para outros

Manchete da Folha de S.Paulo, via Financial Times: donos da maior produtora de ovos dos EUA lucraram 320 milhões de dólares com venda de ações após alta de preços; Justiça afirma que a disparada resultou de manipulação de mercado pela Cal-Maine e outras rivais
Folha de S.Paulo, via Financial Times

Em junho de 2026, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e 17 procuradorias estaduais entraram com ação civil contra Cal-Maine, Versova e Hickman's por coordenarem lances, entre junho de 2022 e março de 2025, para inflar a cotação diária de ovos da Urner Barry, referência de preço nos contratos de atacado do país. As empresas negam a conduta e fecharam acordo no mesmo dia.

US$ 320 miobtidos pela família fundadora da Cal-Maine ao vender sua participação, em abril de 2025
US$ 3,3 mipagos aos estados no acordo, mais doação de cerca de 53 milhões de ovos a bancos de alimentos

A venda da participação ocorreu dias depois de a empresa informar ao mercado que havia recebido intimação civil do Departamento de Justiça. A Hickman's foi adquirida em novembro de 2025 pela Mantiqueira USA, joint venture entre a família Pinto, da Mantiqueira Alimentos, e a JBS. Valor não divulgado.

Tempo 1, a crise brasileira

Sem gripe aviária, e mesmo assim mais caro

Colheitadeira colhendo milho seco em grão e descarregando em caminhão graneleiro
Colheita de milho para grão

A alta brasileira nasceu na ração, não no aviário. O milho encareceu, com a área de milho verão na menor da série histórica da Conab, desde 1976 e 1977.

Caixa de 30 dúzias de ovos vermelhos foi de R$ 171 para R$ 258 em Belo Horizonte, entre janeiro e fevereiro de 2025, segundo o Cepea, da Esalq/USP.

A ração é o maior custo de produção de ovos, e o milho é a maior fração da ração. Quando o milho sobe, o ovo sobe, mesmo sem nenhum problema sanitário no aviário.

Tempo 1, o comprador novo

O produtor teve para onde vender melhor

+185%na exportação brasileira de ovos entre 2024 e 2025
≈ 17,75 mil texportadas aos Estados Unidos em 2025, partindo de quase zero em 2024
A crise americana puxou demanda direta por ovo brasileiro. Parte do ovo que iria para a gôndola nacional seguiu para o porto, mais um fator de alta em cima do milho.

NCM 0407.21.00, ovos de mesa, ComexStat/MDIC. O movimento perdeu força depois das tarifas dos Estados Unidos, em agosto de 2025, quando parte do volume foi redirecionada para outros destinos.

Tempo 1, um cálculo que virou piada

40 ovos por dia

Gracyanne Barbosa reagindo ao preço dos ovos num mercado, e posando com bandejas de ovos em outra publicação
Gracyanne Barbosa e os ovos, antes e depois de virar assunto

No BBB25, a atriz e fisiculturista Gracyanne Barbosa foi a única pessoa desta história inteira que fez uma conta em vídeo, calculando quantos ovos precisaria levar para casa se ficasse confinada por três meses.

"40 ovos por dia, vezes 7 dias na semana, vezes 15 semanas." Chegando a 4.200 ovos, em vídeo publicado nas redes durante o BBB25, janeiro de 2025

40 ovos por dia é uma afirmação de dieta extrema que circulou sem verificação nenhuma. Serve aqui como âncora de cálculo, não como modelo nutricional. Ela parou na primeira camada. E se a gente não parar aqui?

Tempo 1, a conta um nível abaixo

Da dieta ao hectare

Campo de futebol oficial visto de cima, com a área de produção correspondente à dieta de 40 ovos por dia demarcada ao lado, aproximadamente 4.000 metros quadrados
≈ 4.000 m², 56% de um campo de futebol oficial
CamadaCálculoResultado
Ano inteiro40 × 36514.600 ovos
Equivalente humano÷ 288 ovos/hab/ano (ABPA, 2025)51 brasileiros
Plantel necessário÷ 250 ovos/ave/ano civil58 poedeiras
Ração1.217 dz × 1,50 kg/dz1,83 t/ano
Milho, 63% da ração1.150 kg ÷ 6,61 t/ha1.740 m²
Soja em grãofarelo, 30% da ração, em equivalente grão; 711 kg ÷ 3,13 t/ha2.270 m²
Terra necessária≈ 4.000 m²

Coeficiente de postura: linhagem Hisex White, 250 ovos por ave por ano civil. Produtividade de milho e soja: Conab, Rio Grande do Sul, safra 2025 e 2026. Rendimento de esmagamento da soja: Abiove.

Tempo 1, os elos antes da lavoura

E antes do milho?

Ilustração da cadeia produtiva do ovo antes da lavoura: melhoramento genético em laboratório, mistura de núcleo vitamínico mineral, plantio mecanizado de milho, biosseguridade no acesso ao galpão, aviário climatizado e empacotamento dos ovos
Os elos que não aparecem na dúzia

A conta parou no milho e na soja porque são o maior custo. Não porque são o começo.

  • Genética, linhagem melhorada por décadas, de poucas multinacionais. A base genética do plantel brasileiro é importada.
  • Núcleo vitamínico e mineral, a fração da ração que não é milho nem farelo, com preço em dólar.
  • Sanidade, sem gripe aviária em ave comercial no Brasil por biosseguridade, não por sorte. Foi o que permitiu exportar na crise americana.
  • Embalagem, energia, frete, cada um com cadeia própria.
Tempo 1, a virada

O que muda quando você olha o sistema

O preço de um alimento nunca nasce numa causa só. Nasce no cruzamento entre o que acontece antes da porteira, como ração, genética e clima, dentro da porteira, como manejo, escala e decisão da família, e depois da porteira, como quem compra, para onde vai e o que o comprador paga.

Dezoito meses depois desse post, em julho de 2026, o Cepea registrou o preço do ovo no menor patamar real para o mês desde 2019. A mesma cadeia que empurrou o preço para cima também o trouxe de volta para baixo, quando a oferta se ajustou. É o tipo de movimento que vocês vão aprender a nomear ainda hoje.

Cepea, atacado, ovo vermelho R$ 4,10 a 4,56 por dúzia, julho de 2026
Menor patamar real para o mês desde 2019
Tempo 2, teoria

O que é um sistema alimentar

Diagrama circular de um sistema alimentar, com os sistemas biológico, econômico, de saúde, político e social organizados ao redor de um núcleo de produção agrícola e consumo, conectados por entradas e saídas
Adaptado de Food System Map, Nourish

Um sistema alimentar reúne tudo que produz, transforma, distribui e consome alimentos numa sociedade, junto com o ambiente, a economia, a política e a saúde que atravessam esse processo.

O caso do ovo mostrou isso na prática: genética e clima do lado biológico, custo e exportação do lado econômico, hábito alimentar do lado social, tudo entrelaçado numa única caixa de ovos no mercado.

A cadeia produtiva de um único produto, que veremos daqui a pouco, é um recorte dentro desse sistema maior.

Tempo 2, teoria

O homem, a sociedade e a produção de alimentos

Helena Maria da Hora Xavier separa goiabas da própria propriedade para fazer polpa, agricultura familiar em Conceição do Coité, Bahia
Foto: Sergio Amaral/MDS, Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0

Produzir alimento nunca foi só uma técnica. Desde as primeiras roças, a forma de produzir organiza quem trabalha, quem decide, quem come e quem sobra fora da mesa.

  • Escala do indivíduo, o que cada família planta, cria e consome, e o que sobra para vender.
  • Escala da região, como um território se especializa, e o que isso cria de dependência entre regiões.
  • Escala do país, política agrícola, comércio exterior, segurança alimentar como questão de estado.
Toda sistematização de experiência que vocês vão fazer neste semestre está, em algum grau, contando essa relação entre uma família e a produção de alimentos, numa escala pequena e concreta.
Tempo 2, teoria

Os cinco pressupostos do olhar sistêmico

Trocar o olhar de lavoura isolada pelo olhar de sistema começa aqui.

1

Interação

A ação entre elementos é recíproca. Não é só A sobre B. É A sobre B e B sobre A.

2

Complexidade

Não é complicação. Depende da quantidade de elementos e dos tipos de relação entre eles.

3

Totalidade

O conjunto não se explica só pelas partes isoladas.

4

Hierarquia

Há escalas de abrangência. Subindo na escala, os sistemas ficam mais complexos.

5

Organização

Um lado estrutural, o arranjo, e um lado funcional, o que faz o sistema operar.

Há coerência nos atos do agricultor mesmo quando eles contrariam a recomendação técnica. Encontrar essa coerência, e não julgá-la, é a postura que a disciplina exige.
Tempo 2, teoria aplicada

Os cinco pressupostos, no caso do ovo

Interação

O preço do milho afeta o preço do ovo, e a demanda por ovo afeta a demanda por milho. A relação anda nos dois sentidos.

Hierarquia

A escala do galpão, a escala do país e a escala do mercado internacional são sistemas diferentes, um dentro do outro.

Totalidade

Nenhuma explicação isolada, gripe aviária ou clima ou dólar, dá conta sozinha do preço final.

Complexidade e organização

Muitos elementos, poucos concentrando poder de decisão: é isso que organiza quem ganha e quem perde numa crise de preço.

Tempo 2, teoria

A propriedade é um sistema, não uma soma de lavouras

entradas

Insumos, crédito, mão de obra, informação técnica, renda de fora

Unidade de produção, fronteira
Família, centro de decisão e objetivos
CultivoLavoura ou horta
CriaçãoGado, aves
TransformaçãoProcessamento
saídas

Produto, autoconsumo, o que sobra depois de tudo isso

A propriedade não é a soma das suas lavouras. É a rede de relações entre elas, decidida por quem mora e trabalha ali.
Tempo 2, o conceito mais subestimado

A fronteira é uma decisão de quem analisa

A fronteira do sistema estabelece os limites da autonomia interna, define quais interações são consideradas internas e qual é a relação do conjunto com o ambiente.

Clima, chuva, geada
Preço do produto no mercado
Fronteira do sistema
Manejo do solo
Mão de obra da família
Emprego do filho na cidade
A resposta muda conforme a pergunta que você faz. Se a pergunta é sobre renda familiar, o emprego de um filho na cidade está dentro da fronteira. Se a pergunta é só sobre manejo do solo, provavelmente não está.
Tempo 2, teoria

Três eixos para ler o mesmo sistema

É o que vocês vão usar em toda saída de campo: a mesma propriedade, lida por três entradas diferentes.

Produtivo Social Comercialização A propriedade
Produtivo

O que e como se produz

Sistema de cultivo, de criação, itinerário técnico, manejo, escala.

Social

Quem decide e quem trabalha

Composição da família, sucessão, divisão do trabalho, quem controla o caixa.

Comercialização

Para onde vai e quem paga

Canais de venda, formação de preço, poder de negociação em cada um.

Tempo 2, teoria

O que o agricultor decide, e o que ele sofre

Entradas controláveis

Aquelas sobre as quais o agricultor decide: variedade, densidade de plantio, adubação, época de manejo, contratação de mão de obra, canal de venda.

Entradas não controláveis

Aquelas que o agricultor sofre: chuva, granizo, geada, preço do produto, política de crédito, pressão sanitária vinda de fora da propriedade.

A fronteira entre as duas colunas se move. Cooperativa, contrato de entrega e escolha do momento de venda deslocam parte do preço para a coluna da esquerda, sem mudar nada na lavoura. É aí que a gestão entra.
Tempo 2, teoria

Quem decide o quê

Tratar a família como um decisor único é o atalho mais comum, e o que mais estraga um diagnóstico. Dentro da mesma casa há decisões separadas, com prioridades diferentes.

O que costuma se dividir
  • Quem escolhe o que se planta e quando se maneja
  • Quem cuida da horta e dos animais menores
  • Quem controla o caixa e negocia o preço
  • Quem decide sobre investimento de longo prazo
Por que isso importa

Recomendação dirigida a quem não decide não é executada. A regra de campo é observar, não presumir.

Tempo 2, teoria

Quando o efeito volta e vira causa

Retroalimentação: a saída de um sistema volta como entrada. Existe em dois sentidos opostos. O primeiro amplifica.

Ciclo de reforço, cada volta amplifica

Lavoura ou pomar envelhecido Receita baixa e irregular Sem caixa para renovar cada volta agrava a anterior
O mesmo mecanismo apareceu na crise do ovo: plantel menor eleva o preço, o preço alto atrai mais demanda por importação de ovo brasileiro, e a pressão sobre a ração local aumenta ainda mais.
Tempo 2, teoria

Quando o sistema se corrige sozinho

O segundo sentido da retroalimentação freia, em vez de amplificar.

Ciclo de equilíbrio, cada volta freia

Produto fora do padrão comercial aumenta Vira processamento caseiro Perda cai, entra alguma receita cada volta freia a anterior
Foi um ciclo de equilíbrio que trouxe o preço do ovo de volta para baixo, dezoito meses depois do post: a oferta reagiu ao preço alto, e o preço caiu.
Tempo 2, teoria

Montante, produção e jusante

🌱 Antes da porteira

Montante

  • Mudas, sementes, insumos
  • Crédito rural e seguro
  • Assistência técnica
→ porteira, entra
🚜 Dentro da porteira

Produção

  • A unidade de produção
  • Manejo e colheita
  • Classificação e armazenagem
→ porteira, sai
🛒 Depois da porteira

Jusante

  • Cooperativas, atravessador
  • Atacado, varejo, feira
  • Consumidor final
Tempo 2, teoria

Como medir poder num elo da cadeia

Conte os atores dos dois lados de uma negociação. Onde há muitos de um lado e poucos do outro, o preço se forma do lado dos poucos.

Muitos produtores
💰 o preço se forma aqui →
Poucos compradores
Foi isso que o processo do Departamento de Justiça americano apurou: poucas granjas concentravam poder suficiente para mover a cotação de referência de toda a cadeia. A regra vale a montante e a jusante. No leite gaúcho, milhares de produtores entregam a um número pequeno de indústrias e cooperativas em cada região; no vinho, a mesma pergunta muda de resposta conforme o produtor entrega uva à cantina ou vende a garrafa na propriedade.
Tempo 2, teoria

Da lavoura ao mercado, quem concentra o poder

O mesmo princípio do slide anterior, agora em escala global: poucos elos concentram poder sobre uma base ampla e dispersa de produtores.

Capital financeiro
Sementes e agrotóxicos
Trading de commodities
Produção agrícola
3gestoras de fundos no topo, com participação em quase todas as camadas abaixo
4empresas dominam sementes e agrotóxicos
10tradings concentram o comércio mundial de grãos
570 mipropriedades agrícolas formam a base do sistema, no mundo inteiro
Cada camada tem seus próprios donos. Mas os mesmos dois ou três nomes de capital financeiro aparecem como acionistas relevantes em praticamente todas elas, dos insumos ao supermercado. Os próximos dois slides mostram os números por trás de cada camada.

Fontes: ETC Group e GRAIN, Top 10 Agribusiness Giants (2025); O Joio e o Trigo (2024); Lowder, Skoet e Raney, World Development (2016).

Tempo 2, teoria

Poucas empresas em cada elo, da semente ao porto

Sementes

Bayer, Corteva, Syngenta e BASF controlam 56% do mercado global de sementes comerciais.

Agrotóxicos

As mesmas quatro empresas controlam 61% do mercado mundial de agrotóxicos e pesticidas.

Trading de grãos

Cargill lidera o comércio mundial de grãos, seguida pela estatal chinesa Cofco.

Concentração

As dez maiores tradings de commodities agrícolas somaram mais de US$ 500 bilhões em receita em 2020.

Do outro lado do balcão, um agricultor negocia sozinho o preço da semente e do frete. Do lado de cá, quatro a dez empresas decidem esse preço.

Fontes: ETC Group e GRAIN, Top 10 Agribusiness Giants (2025); Wetter, Chowdhry e Daño, ETC Group, Food Barons 2022, via Rural21 (2023).

Tempo 2, o gancho revisitado

Por trás das marcas, os mesmos acionistas

BlackRock, Vanguard e State Street Global Advisors, os três maiores gestores de fundos do mundo, aparecem como acionistas relevantes em quase todo o sistema alimentar.

21 de 31maiores corporações do sistema alimentar têm uma das três gestoras entre suas acionistas relevantes
16 de 31têm as três gestoras juntas como maior bloco acionário, entre elas Coca-Cola, PepsiCo, Tyson Foods, Bunge, Nestlé, JBS e Ambev
88%das empresas do S&P 500 também têm o mesmo trio como maior acionista combinado, fora do agro
É o mesmo mecanismo do processo movido pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos contra a Cal-Maine, no caso do ovo: poder concentrado o bastante para mover a cotação de referência de uma cadeia inteira. Aqui, esse poder atravessa quase todo o sistema alimentar ao mesmo tempo.

Fontes: João Peres, O Joio e o Trigo, mar. 2024, com base em relatórios financeiros e Yahoo Finance; Fichtner, Heemskerk e Garcia-Bernardo, Business and Politics, 2017.

Tempo 2, teoria e exemplo gaúcho

Nem toda cadeia tem o mesmo tamanho

Cadeia longa: muitos elos, preço formado longe da propriedade, escala compensa a distância. Cadeia curta: poucos elos, mais margem, mais trabalho comercial. Duas cadeias do Rio Grande do Sul, lado a lado.

Soja em grão, farelo e óleo, os principais produtos derivados do processamento industrial da soja
Soja, cadeia longa. Do produtor ao porto, passando por tradings, com preço formado na bolsa de Chicago e no dólar, longe da propriedade.
Barracas da Polifeira do Agricultor no campus da UFSM em Santa Maria, com produtores vendendo diretamente aos consumidores
Polifeira do Agricultor, cadeia curta. Feira semanal no campus da UFSM, em Santa Maria, com venda direta do produtor ao consumidor.
Cadeias longas e curtas convivem no Rio Grande do Sul, muitas vezes na mesma região, para produtos diferentes. Não existe uma melhor que a outra. Existem trocas diferentes.
Tempo 2, preparação da saída

A cadeia da uva no Rio Grande do Sul

Dois arranjos da mesma cadeia. O das visitas é o segundo.

Vinhedo em parreiral no Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves, Serra Gaúcha
Foto: Stella Segatti, Vale dos Vinhedos, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0
Serra Gaúcha

Arranjo consolidado: cooperativas, vinícolas de escala, denominação de origem. Muitos produtores, indústria estruturada.

Região Central

Outra escala, outro público: vitivinicultura menor, venda mais direta, turismo rural como parte da renda.

Levem essa pergunta para as duas visitas: onde está o montante e o jusante desta propriedade, e quem, nessa cadeia, define o preço do que ela produz?
Tempo 3

Uma propriedade, dois olhares, um cartaz só

1, o sistema por dentro

Desenhem o fluxograma

Uma propriedade familiar da região: entradas, subsistemas de cultivo, criação e transformação, saídas, fluxos internos. Depois, identifiquem no próprio desenho um ciclo de reforço e um de equilíbrio.

2, o sistema por fora

Posicionem na cadeia

No mesmo cartaz: o que entra a montante, o que sai a jusante, e quem, nessa cadeia, define o preço do que essa propriedade produz.

Tempo 3, exemplo

Uma propriedade mista, grãos no verão e boi no inverno

Grãos no verão, boi no inverno, horta, ovos e leite para casa. O mesmo desenho que vocês vão fazer: entradas, subsistemas, saídas, e a posição na cadeia.

🌱 Montante

Sementes de milho, soja e pastagem de inverno, bezerros e garrotes para engorda, adubo, calcário, crédito rural (Pronaf)

Propriedade mista, fronteira
Família, centro de decisão
🌽 VerãoLavoura de milho e soja
🐄 InvernoPastagem e engorda de bovinos
🥬 HortaHortaliças, autoconsumo
🥚 AvesOvos, autoconsumo
🥛 Vaca leiteiraLeite, autoconsumo
🛒 Jusante

Grãos para cooperativa, boi gordo para frigorífico ou leilão. Horta, ovos e leite ficam na família, não entram na cadeia comercial.

↺esterco dos bovinos e das aves vira adubo da lavoura e da pastagem, fecha o ciclo dentro da fronteira
Hoje você sai sabendo

Do post ao papel

O que você aprendeu
  • Ler um sistema pelos cinco pressupostos, e não como uma soma de partes
  • Desenhar uma propriedade com fronteira, subsistemas, entradas e saídas
  • Reconhecer um ciclo de reforço e um de equilíbrio
  • Situar qualquer propriedade nos três segmentos de uma cadeia
Próxima aula, 19/08

O processo de sistematização

Os cinco tempos de Jara Holliday e a escolha do eixo de leitura, o que vocês vão levar para a primeira saída de campo, em 02/09.

Colégio Politécnico da UFSM, Técnico em Agricultura, CPSEA101, 2026/2 Material elaborado com auxílio de inteligência artificial, sob revisão e responsabilidade dos docentes